Para que não se diga o contrário, convém começar por declarar que tenho muita pena que o Doutor Hernâni Lopes tenha deixado o mundo.
Nos últimos tempos, todos ouvimos o Doutor Hernâni Lopes dizer de sua justiça sobre a nossa situação económica, financeira, cultural, social e moral.
Todos o ouvimos dizer que os salários da função pública deviam ser reduzidos em 15, ou 20 ou 30 por cento.
Todos o ouvimos demonstrar que o caminho que as contas públicas tem trilhado nas mãos desta gente, nos levará direitinhos para as mãos do FMI.
Todos o ouvimos dizer que o FMI, coisa que ele conhecia como ninguém em Portugal, seria de evitar, mas que não era o papão por aí propagandeado.
Ouvimo-lo dizer muito mais coisas, sempre cheias de bom senso, de oportunidade e de realismo.
O senhor morreu. Por toda a parte se acotovelam os seus panegiristas. Da extrema-esquerda à direita, o coro é unânime, a saudar a sua competência, a sua honestidade, a sua dedicação ao serviço público, um ror de qualidades que não passa pela cabeça do IRRITADO pôr em causa.
O que é engraçado, ou seja, não tem graça nenhuma, é ver que toda esta gente, sobretudo a que tem o poder e que se desfaz em ditirâmbicos elogios, se está nas tintas para toda e qualquer opinião formulada pelo finado.
Nem um só dos seus conselhos foi seguido. O Doutor Hernâni Lopes foi, enquanto vivo, quando muito recordado como o ministro dos apertos do passado. Boa pessoa, mas a merecer nenhum crédito.
Agora, esta malta toda desata aos gritos que se tratava de um dos melhores de todos nós. Em vida, t’arrenego, que só dizes asneiras. Depois de morto, passou a herói. Desde que nada do que ele disse se aproveite.
Não é possível ser mais cínico.
Se o Doutor Hernâni Lopes, lá do alto em que tão firmemente acreditava, assistir a estas cenas, por certo não lhe faltará pensar que é capaz de valer a pena ter morrido. Para haver tanta gente a elogiá-lo. A ele, já que, às suas ideias, nem cheirá-las.
8.12.10
António Borges de Carvalho

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