Pacheco Pereira (o historiador, não o político) escreveu um artigo digno de nota, ou mais digno de nota que outros.
Para quem, como o IRRITADO, quando escreve sobre as comemorações da “república”, prefere citar autores republicanos, César de Oliveira, Vasco Pulido Valente, etc., sempre historiadores sérios que, como tal, não podem deixar de dizer a verdade, é um consolo ver Pacheco Pereira opinar sobre a I república, confirmando, como qualquer pessoa minimamente isenta, as opiniões do IRRITADO a respeito de tão brutal desgraça.
Diz ele, por palavras suas, que as actuais comemorações andam, pelo país inteiro, a injectar aldrabices pseudo-históricas na cabeça de criancinhas inocentes e de adultos crédulos e ignorantes. Não são comemorações da república em geral, mas da I república em particular. Coisa que, tem dito o IRRITADO, merece tudo menos ser comemorada.
Os filhos da viúva que ainda por aí vegetam, os jacobinos que ainda não deram pela obsolescência própria, os mários soares, os alegres & companhia, esperneiam que nem porcos no dia da matança, a gritar que a II república não foi uma república, que esta é a segunda, não a terceira, e outras concomitantes bacoradas “históricas”.
Vejamos algumas das constatações da realidade histórica, escritas por Pacheco Pereira, historiador.
O que se anda para aí a comemorar, diz ele, é a I república, “através da imagem laudatória e mítica que se fixou nos anos de oposição ao regime do Estado Novo”. E continua, na senda do que o IRRITADO não se tem cansado de dizer: “o regime de Salazar e de Caetano não só foi republicano na forma, como o foi muitas vezes mais do que na forma, na essência, sendo que a Salazar se deve o fim da querela república-monarquia que até aos anos 50 se mantinha viva. Só que era outro tipo de republicanismo, não o que estamos a comemorar.”
A I república, diz Pacheco Pereira como o IRRITADO tem dito, “era intolerante, pouco democrática, anti operária, anti sindicalista, tão corrupta como todos os regimes, tinha uma clientela venal e convivia bem com milícias violentas bem como com o embrião de uma polícia política, a partir da qual a própria PVDE, depois PIDE, depois DGS, evoluiu. Havia eleições, mas dificilmente se podem considerar mais que um simulacro… num sistema que funcionava na base do clientelismo e do patrocinato, a favor do Partido Democrático… Havia mais censura do que se imaginava e as perseguições políticas eram comuns, assim como o número de presos e de deportados… assassinatos políticos, em particular a célebre noite sangrenta…”.
O Estado Novo (a II república), segundo Pacheco, “instituiu todas as formas de violência”. O constitucionalismo monárquico, “que os republicanos ajudaram a denegrir era, esse sim, muito mais tolerante que a I República. Basta ler As Farpas… os Pontos nos is, o António Maria, a Paródia, para o perceber.”
Só falta a Pacheco Pereira, como bom republicano, chegar à conclusão lógica do seu pensamento: a república, tanto na sua primeira como na sua segunda versão, não é coisa que se comemore, mas que se abomine.
“… convém não nos iludirmos, diz Pacheco… (quanto a que) as comemorações deste ano conseguiram ultrapassar de forma significativa a visão do republicanismo maçónico e jacobino, preso à mitificação da I república, e sem perspectiva crítica”.
Pacheco fecha o escrito com um “Viva a República!”, o que só nos diz até que ponto um republicano sério pode sê-lo sem recorrer às aldrabices institucionalizadas em que um país inteiro se vê mergulhado durante o ano inteiro.
19.7.10
António Borges de Carvalho

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