Hoje, era para aí meio-dia, abri o browser. Sapo – Portugal on line, jornal electrónico. As últimas da véspera e da noite. Curiosamente, segundo a primeira página desta influente publicação, a Drª Manuela Ferreira Leite não tinha dado à SIC a entrevista que todos nós julgávamos ter visto. À tarde, insisti. A entrevista da senhora continuava a não constar. Quem paciência tiver, compare com as edições do mesmo jornal quando o senhor Pinto de Sousa deu uma entrevista ao mesmo canal, à mesma hora e à mesma jornalista. Assim verão o que é a informação nas mãos do PS.
A coisa pareceu-me estranha, de tão inopinada e absurda. Depois, pensei um bocadinho. Ora o “Sapo”, cujas qualidades O Irritado não usa pôr em causa, é pertença da PT. Estão a ver? A senhora, com carradas de razão, tinha acusado a PT de estar a prestar um serviço ao senhor Pinto de Sousa, na medida em que, propondo-se comprar a TVI aos castelhanos da Prisa, outra coisa não estava a fazer senão arranjar uma catraca para aceder ao poder na estação e correr com o senhor Moniz e a sua excelentíssima esposa do poleiro onde estão. Não será, por isso, arriscar muito, se dissermos que a PT recebeu as devidas ordens da golden share para fazer sobre o assunto o silêncio possível.
Quando a TVI era o púlpito máximo da Nação para abater o governo PSD/CDS, toda a malta do PS, e quejandos, achava muito bem. Quando alguém desse governo murmurou, pedindo “o contraditório”, foi uma tempestade, uma revolta “justa” e “ofendida” das massas contra esta “ingerência” na “liberdade” de informação. Até o Presidente da República chamou aos salões o mais virulento inimigo do PSD, o senhor Sousa, para se “solidarizar” com ele e com o coro dos indignados. O homem, com o evidente apoio de Sua Excelência, demitiu-se estrondosamente, orgulhoso do seu inalienável direito de dizer o que muito bem lhe apetecesse sem que a ninguém fosse dado fazer-lhe frente ou contradizê-lo, mesmo que “em diferido”.
Por outro lado, o tal Presidente da República abriu o glorioso caminho que a PT agora quer trilhar para ajudar o senhor Pinto de Sousa. Que fez ele? Como odiava o Primeiro-Ministro da altura mas não o podia demitir, esperou que o PS e o PC se reorganizassem e, logo que os achou estabilizados, deu a volta a volta ao texto. Borrifou no espírito da Constituição e dissolveu o Parlamento para se livrar do Primeiro-Ministro e, à boa maneira do pior do constitucionalismo monárquico e do melhor da I República, fabricar um governo que lhe agradasse.
O primeiro-ministro que temos, ciente que os seus camaradas castelhanos, apesar de camaradas, estão à rasca de massa e não vão, assim, sem mais nem ontem, despedir um casalinho que lhes dá imenso dinheiro a ganhar, imaginou uma solução para dar a volta à coisa, seguindo, com notável fidelidade, o exemplo dessoutra desgraça que aconteceu à Pátria e que se chama Jorge Sampaio. Não podemos correr com essa gente? Temos que poder!
Daí:
– Ó Bava, compra essa merda, de tal forma que, assim que te sentares no Conselho de Administração, corras com os Monizes sem apelo. OK?
– V. Exª manda.
Por outras palavras, foi o que disse a dona Manuela sem grandes pormenores e o que o Sapo calou. Mas o governo vai mais longe. Declara, e redeclara, que não tem nada a ver com o assunto, que a tal golden share não vale um caracol, que a PT é uma empresa privada sobre a qual o governo, ou o Estado, não têm qualquer poder, ou não exercem o poder que têm.
O que se pode concluir é que, ou o governo é completamente incompetente (o que é verdade), de nada servindo, nas suas mãos, o poder que tem para evitar que a PT se meta num negócio ruinoso, ou exactamente o contrário, isto é, usa o poder que tem para, através do tal negócio ruinoso, se ver livre de vozes incómodas e meter nos “varais” do socialismo “democrático” umas vozinhas que lhe não agradam.
Ainda que a segunda hipótese seja, evidentemente, a que tem pés para andar, entre as duas, venha o diabo e escolha.
Razão tem a dona Manuela quando diz que as legislativas são fundamentais. Para além das mudanças de políticas que são imperiosas se não quisermos morrer de fome, tais eleições têm como suprema utilidade a de poder servir para pôr na rua, desta vez não de forma socialista, mas por meios legítimos, o senhor Pinto de Sousa e a associação de malfeitores políticos e de incompetentes em que ele transformou o pouco que de bom podia restar do Partido Socialista.
25.6.09
António Borges de Carvalho
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