Quem tem umas noções básicas de contabilidade conhece uma regra que, antigamente, se chamava “equação dos balanços”. Significa que, em contabilidade, nunca há desiquilíbrios, isto é, tudo o que se escritura numa ou noutra das colunas, tem uma contrapartida contabilística. Se não tem, as contas estão erradas.
Isto não se aplica às investigações policiais. Ou aplica? Não sei.
Os distintos investigadores do caso Freeport passaram dois suspeitos a arguidos de corrupção activa consumada. Para o observador independente, a equação está coxa. Para haver corrupção activa consumada é preciso que haja corrupção passiva consumada. Se alguém pagou, alguém recebeu. Não é?
Então, do outro lado da equação, onde estão os arguidos? Descobriu-se, até ver, uma só “irregularidade”, aliás confessa e não punível: a cunha do tio Júlio. É tudo.
Apesar das convicções da PJ, comunicadas aos ingleses, e das convicções dos ingleses, comunicadas à PJ, não há arguidos de corrupção passiva. Isto, para a polícia de Sua Magestade Britânica, é mais ou menos chinês. Ela não sabe o que é isso de arguidos. Há suspeitos, e pronto. Por cá, há suspeitos a brincar e suspeitos a sério, que se chamam arguidos. O que é melhor, não sei.
Parece que as águas, para já, correm para parte nenhuma, o que é uma irregularidade contabilística e um impossibilidade hidráulica.
A propósito: quando é que o senhor Pinto de Sousa é interrogado? Pode ser, até, que tenha alguma coisa para dizer para além de elaborar sobre a teoria da conspiração e da obscura e negra tramóia.
Que chatice, deve pensar o pobre do senhor, andámos quatro anos com a coisa abafadinha, e agora, sem mais nem menos, os sacanas dos ingleses vem deitar gasolina nas brasas. É de azar, xiça!
Consta que, ou o camarada Brown acaba com o Serious Fraud Office, ou a aliança luso-britânica está em perigo.
22.2.09
António Borges de Carvalho

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