IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


Castelhanismos

O nosso bem-amado Primeiro Ministro apareceu nos telejornais a anunciar mais uma extraordinária benesse para o povo. Trata-se de uns tipos que vão fazer uma fábrica de painéis solares. A coisa merece todos os encómios da parte do governo que temos. Não se ficou a saber quais foram os incentivos, as isenções fiscais, as facilidades financeiras que o dito governo generosamente concedeu aos empreendedores espanhóis da coisa. Mas isso é um pormenor sem importância.

Por mim, não acho mal. Nem bem. Nem antes pelo contrário.

O que me trás a referir a espampanante cerimónia é um facto tão simples quão repugnante: por trás do senhor Pinto de Sousa (Sócrates), havia um painel que rezava: “Fábrica de assemblagem de…”.

Percebi do que se tratava. No entanto, sempre a duvidar de mim mesmo – um vício idiota, fui ao dicionário. As minhas suspeitas eram fundadas. Assemblagem não existe em português, língua certamente bárbara para gosto castelhano. Neste canto da Península diz-se montagem, não é?  

Quando eu era rapazinho e alguém dizia “vou a Espanha”, era costume responder: “trás de lá uma espanhola desmontada”. Perante a estranha encomenda, o viajante perguntava: “para quê?”. E lá vinha a ordinaríssima e pornográfica resposta: “é para montar cá”.

Na versão moderna, legitimada com a nobre chancela e a augusta presença do primeiro ministro, dir-se-á que as espanholas passam a ser assembladas. É mais fino.

 

Se você for às secções de roupa do Corte Inglês, dá com umas baiucas encimadas por um letreiro que diz “Provador”. Se se dirigir à menina e perguntar se se trata do gabinete de algum provador de vinhos, ela fica atrapalhadíssima e, como está proibida de ser malcriada, faz-lhe um sorriso amarelo e não responde.

Se for até lá abaixo, dá de caras com anúncios a uma coisa que se chama “Carta de Compras”. Na melhor das intenções, interroga o pessoal sobre se se trata de compras por carta, se oferecem alguma carta náutica a quem fizer compras, se é publicidade mal redigida a um baralho de cartas, se quê. Após algumas diligências, a sua curiosidade é satisfeita: a palavra quer dizer “lista”, ou seja, trata-se de uma lista de compras. Mas como "lista", em castelhano, quer dizer "pronta", os canalhas preferem dar a coisa a entender à sua maneira.

Se for à secção de papelaria, encontra os mais extraordinários nomes para as coisas mais vulgares e comezinhas. Traduções para quê?

Dizem que é obrigatório rotular os produtos em português. No entanto, parece que, se a redacção de origem for em castelhano, já não é assim tão obrigatório.

Escrevi sobre o assunto a uma organização estatal que se chama Instituto do Consumidor. A resposta foi que não tinham nada com isso. Pois não.  

O consumidor português não tem, com a aprovação explícita do senhor Pinto de Sousa (Sócrates), o direito de ver as coisas escritas na sua língua.

 

Já que falo do Corte Inglês, não resisto a deixar uma pergunta estúpida: se a coisa fosse portuguesa, será que aquela espantosa rampa no estacionamento teria sido autorizada? Estou em crer que não.

Mas devo ser parvo, ou sofrer de nacionalismo primário. A minha opinião, como se estivesse embriagado, põe-se de lado. Rima, e é verdade.

 

António Borges de Carvalho


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