Na sua “Crónica Feminina”, dona Inês Pedrosa, notável escritora da nossa praça, faz um estranho paralelismo entre os senhores Otelo, Alberto João Jardim e Pedro Santana Lopes.
Porquê esta irmandade? Porque, no douto parecer da ilustre senhora, todos comungam dos seguintes defeitos: “jogam com as emoções das pessoas, exacerbando-as sobre si”, causam “hipnose física e verbal”, trata-se de “prestidigitadores de factos e palavras”, “prometem o céu”, “utilizam no poder um discurso de contra-poder”, “armam-se em vítimas”, etc.
Como o povo ou é “analfabeto” ou sofre de “iliteracia” e “não sabe ler estatísticas”, estes homens são, para o povo, um “afrodisíaco eleitoral”.
Pelo menos no que se refere a Pedro Santana Lopes, jamais alguém o ouviu “prometer o céu” fosse a quem fosse ou fosse como fosse. Se a senhora o acha eleitoralmente afrodisíaco, ou se sente politicamente hipnotizada por ele, o problema é dela, não dos analfabetos ou dos iliterados, passe o neologismo. E não nos diga, senhora escritora, que Santana Lopes não foi vítima do golpe de estado do Presidente Sampaio, ansioso por pôr a família no poder!
Dir-se-ia que, se não estivessem aqueles três nomes no texto, a senhora estaria a descrever as qualidades do senhor Pinto de Sousa. Então não foi o senhor Pinto de Sousa quem prometeu o céu (os postos de trabalho, o não aumento de impostos…)? Não foi o senhor Pinto de Sousa quem disse que estava tudo a correr pelo melhor quando estava tudo a correr pelo pior? Não é o senhor Pinto de Sousa quem insiste em ser “vítima” da oposição, que não lhe propõe coisas que ele ache boas? Não é o senhor Pinto de Sousa quem, vezes sem conta, faz “prestidigitação” com os números do défice e do orçamento? Não é a isto o que se chama “jogar com as emoções das pessoas” com a sua credulidade, com a sua tendência para achar, como opina a senhora, que quem está por cima não mente?
As intelectualíssimas afirmações da ilustre escritora mais não são, afinal, que um pouco diáfano manto para cobrir a verdade do julga deixar na sombra: a “tese”, aliás explícita, de que é preciso “estabilidade governativa” e que esta só se consegue com “maioria absoluta”.
Como vêm, o que a senhora quer é repetir os argumentos do senhor Pinto de Sousa, num panfleto eleitoral mascarado de “análise” sociológica-política.
Quase diria que, no fundo, acha que quem a lê no “Expresso” é analfabeto e sofre de “iliteracia”.
O problema dela é que ainda há quem não seja parvo, ainda que seja analfabeto, “iliterado”, professor catedrático, médico, engenheiro autêntico ou simplesmente cidadão.
7.1.09
António Borges de Carvalho

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