Ontem, tive um grave problema conjugal. A minha mulher, intolerante como compete, opôs-se a que eu visse a entrevista do fulano. Alegava estar farta das bocas do primeiro-ministro, bem como das do Marcelo. Com carradas de razão.
O argumento que usei para conseguir assistir a mais uma sessão de patacoada governamental foi o de, já que, quiséssemos ou não, íamos ter uma semana inteira de comentários e artigos sobre o assunto em tudo o que é meio, mais valia ver a coisa para poder ajuizar por nós. E lá a convenci a suportar mais uma ensaboadela de mentira e de batota.
Sua Excelência o Primeiro-Ministro, senhor José Sócrates de Carvalho (da mãe) Pinto de Sousa (do pai), postula ser de grande valia a sua obra de fazer descer o défice de 6,8% do PIB para 2,3.
Consultado o Eurostat (está na Internet), poderão V. Exas. verificar que jamais houve tal défice. Trata-se de pura aldrabice. Não obstante, o senhor Pinto de Sousa repete-a ad nauseam, cego ao facto de todas as instâncias competentes, nacionais e internacionais, dizerem o contrário.
Santana Lopes e Bagão Félix “legaram” ao senhor Pinto de Sousa um défice de 2,9% (dentro das normas do PEC), o que vem escrito nas contas do Estado e nas da União Europeia. A verdade é a das contas, não a do senhor Pinto de Sousa e dos seus áulicos. O senhor Pinto de Sousa e o senhor Santos começaram por subir o "défice" “herdado" para 3,3%, e depois desceram-no até aos tais 2,3.
Como? À custa da maior subida de impostos de que há memória e da desorçamentação de muitos, muitos milhões que, não estando orçamentados, acabam por ter que ser pagos como se estivessem. É a isto que o senhor Pinto de Sousa chama “contenção do défice” ou “ordem nas contas públicas”, a coroa de glória do seu consulado.
Santana Lopes e Bagão Félix, como Durão Barroso e Ferreira Leite, conseguiram o mesmo sem brutalizar a sociedade, “as empresas e as famílias”, como se diz agora. Que se veja a diferença e se conclua dela, é o mínimo que se pode pedir aos portugueses.
A batota atinge as raias da loucura quando o homem tem a coragem de afirmar que foi ele e o seu governo quem obrigou o BCE a baixar a taxa de juro e que é por isso que os portugueses lhe devem a (futura) baixa das prestações da casinha que foram empurrados a comprar. Deixo sem mais comentários esta aldrabice, uma vez que se trata de assunto do foro psiquiátrico.
Em matéria agrícola, não andamos longe disto. Confrontado com os números, o homem mete os pés pelas mãos e diz que, se estão “retidos”, há dois anos, 800 milhões da União Europeia, é porque o Estado não tinha a sua parte para meter no pacote. Tal parte, segundo o notável político, era de 160 milhões. O Estado só tinha 100. E porque faltavam 60, o governo “cativou” 900 (800+100. Agora, anuncia o homem, pletórico de orgulho e de amor pela agricultura, vai acrescentar 100, à conta do défice, e distribuir, saberá ele quando, 1.000 milhões. Grande homem!
E as dívidas do Estado? Bom, essa de pagar as dívidas, se vierem a ser pagas, deve-se à oposição, mormente ao CDS/PP. Isso, o homem não confessa. Pelo contrário, ufana-se de ter a intenção de pagar. Era para ser em Novembro. Não foi. Será em Março. De que ano, não se sabe. O que se sabe é que o governo ganhou pelo menos três meses de espera até que se comece a dizer que mentiu mais uma vez. Como, entretanto, a crise “exterior” se vai agravar, se o senhor Pinto de Sousa não cumprir mais esta promessa, o culpado será o rei da Papuásia ou coisa que o valha.
Na educação, tivemos novidades de monta.
Por exemplo, os resultados escolares deixam de ter qualquer influência na avaliação dos professores. Sabem porquê? Porque, segundo o primeiro-ministro, tal critério é novo, por conseguinte não estava nos “planos” dos professores! Não, o governo não recuou! Reconheceu que era uma injustiça usar os resultados do ensino como critério, uma vez que os professores não têm nada a ver com tais resultados. De tal maneira que nem sequer os consideraram nos seus “planos”. Injusto seria que fossem obrigados a pensar em tal coisa. Que amor pela educação!
Uma afirmação que não se pode deixar passar sem um elogio é a que se refere ao ensino profissional. O senhor Pinto de Sousa diz que herdou, neste ensino, 5.000 alunos, e que, dada a notabilíssima acção do seu governo, a população escolar aumentou em 60.000, cifrando-se actualmente em 90.000. Que domínio dos dossiers, que precisão matemática! Engenhêros!
A reforma da administração pública é outra grande obra de Pinto de Sousa. Segundo ele, há agora menos 50.000 funcionários. Se os números forem tão fiáveis como os do ensino profissional, tanto podem ser 50, como 30, ou 20, ou nenhum, não é? Os tais 50.000 vêm poupar mais de 1% do PIB, diz ele. Então, perguntamos nós, como é que a despesa pública, no orçamento dele, vai aumentar?
Bom, tudo se explica com uma frase que proferiu quando lhe falaram em “cenários” para o seu futuro político:
“ – Eu não raciociono sobre cenários”, disse.
Sobre outras matérias, é legítimo concluir, o homem raciociona. Raciocinar não é com ele.
Ou então o seu português foi aprendido usando o sistema do inglês técnico! Lembram-se?
O senhor Pinto de Sousa é uma pessoa exigente. Exige que a oposição apresente, de imediato, alternativas à sua política. Quem manda é ele, que diabo! Por isso, até quando segue as propostas da oposição, coisa que não reconhece, não está a seguir as propostas da oposição porque a oposição nada propôs! O homem raciociona como um semi-deus!
– Deslealdade para com o Presidente?
– Nem pensar!
– Não prometeu ao Presidente que ia tratar a contento do estatuto dos Açores?
– Bom, isso – titubeia, enrascadíssimo – não digo.
– Porquê?
– Porque não revelo o teor das minhas conversas com o Presidente.
Conclusão: o Presidente tem carradas de razão quando, claramente, o acusa de deslealdade. Uma “qualidade” que (ainda) não sabíamos que o homem tinha, a somar às muitas que já lhe conhecemos.
A girândola final da entrevista deixou-me extasiado. O governo vai alterar o orçamento porque, como toda a gente menos o governo já sabia, o orçamento é um nado morto. Mas, atenção!, não se trata de um orçamento rectificativo mas de uma rectificação do orçamento. Um raciociônio digno da mais alta admiração.
E mais não digo, porque já estou enjoado.
6.1.09
António Borges de Carvalho

Deixe um comentário