Cavaco fala na ONU em português. As gentes embandeiram em arco. Que feito! Que coragem! Que extraordinária acção na defesa dos sagrados direitos da língua portuguesa!
As pessoas nem dão por que o Amadinejá fala na ONU, desde sempre, na sua língua de trapos.
A coisa atinge foros de loucura.
O “Diário de Notícias” publica uma lista, que foi buscar a um site qualquer, sobre as “línguas da ONU”.
Isto, para chegar à brilhante conclusão que o português é língua de comunicação de 177,5 milhões de pessoas. Só o Brasil tem mais de 190 milhões de cidadãos!
O castelhano, indevidamente chamado “espanhol”, diz o DN, tem 322,3 milhões de falantes! Somadas as populações dos países “castelhanofones”, teremos para aí uns 260 milhões! Ou então o DN inclui neles as Filipinas, onde o castelhano é meramente residual, como o português em Goa ou em Macau. Ou então o DN anda a dormir na forma!
O “chinês”, campeão do DN, não existe. O que existe é uma série de línguas chinesas. Além disso, nem a língua administrativa da China nem as outras são faladas fora do país, nada adiantando que seja língua da ONU ou que deixe de ser.
O árabe, que o DN põe com mais falantes que o português, terá menos uns 30 milhões que a língua de Pessoa.
Ao francês, coitadinho, o DN atribuiu 64,86 milhões de faladores, deitando para o lixo uns 80 milhõezitos.
Enfim, nem o feito de Cavaco merece tantos encómios, nem os “encomiadores” têm a mais remota noção daquilo de que falam.
25.09.08
António Borges de Carvalho

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