Quem não conhece o tenebroso senhor de estranha barbicha que aparece todos os dias na televisão, maquiavélico e poderoso, e que é patrão de uma das mais poderosas financeiras do país, a associação das farmácias?
Sabe-se, embora haja pouco quem queira mexer nisso, que Portugal é vítima, não só do socialismo, de esquerda e de direita, como de uma série de estruturas jurídicas mais ou menos medievais, como a lei do arrendamento, as leis do trabalho… e a lei das farmácias. Postulava esta que só os farmacêuticos diplomados podem ser proprietários das ditas e que as ditas tinham que estar a não sei quantas centenas de metros umas das outras.
Após as estrondosas declarações “modernizantes” do senhor Pinto de Sousa, com honras de discurso de posse, parecia que, no que às farmácias diz respeito, as coisas iam mudar. Mas a montanha pariu (mais) um rato. O que aconteceu foi o aparecimento de umas lojecas a vender produtos semi-farmacêuticos, lojecas que, como é óbvio, praticam os preços mirabolantes das farmácias*, e o limite de quatro farmácias por proprietário, o qual (aleluia!) poderá não ser farmacêutico.
De resto, com meia dúzia de investidas do senhor da barbicha, as coisas foram ficando mais ou menos na mesma, não vá o homem irritar-se e exigir, já!, os milhões que o senhor Pinto de Sousa deve à sua prestimosa organização.
De tal maneira escandalosa é a coisa que a Comissão Europeia processou o Estado Português, a fim de acabar com a rebaldaria.
Espera-se que o senhor Pinto de Sousa se encolha, a ver se passamos a ter alguma concorrência e se os preços que nos esmagam entram nos varais.
António Borges de Carvalho
* Por imposição médica, usamos cá em casa uma coisa que não é sabão, mas lava como se fosse. Um frasquinho daquilo custa, em Lisboa, números redondos, 20 euros. Exactamente o mesmo frasquinho, em Paris, custa 10 euros. Contas feitas, se eu for a Paris fazer o abastecimento para um ano, dá para o avião (low cost) e para um belo fim de semana num hotel de quatro estrelas. Bonito, não é?

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