– Tá?
– Olá, Fernando, bom dia.
– Bom dia António, tás bom?
– Fino, mas preciso da tua ajuda.
– Ora diz lá
– É assim: já estou farto destes gajos dos comes e bebes. O espectáculo é uma chatice, os tipos acampados à frente da Assembleia a fingir que não comem, uma balda, dá mau aspecto… ainda por cima o Stalistic a mandar bocas para os jornais, uma rebaldaria do caneco.
– Pois, pá, mas porque é que não mandas lá o careca?
– Não queriam mais nada? Já não chega andar a perder tempo com as associações dos tasqueiros, mais as dos fulanos dos hotéis e os das farras, e ainda dar corda a estes espontâneos? Vão-se lixar, percebes?
– Eu percebo, mas o que queres que eu faça, que mande lá a PSP correr com eles? Cai mal, os tipos da TV andam a fancos… ainda nos chamam fascistas, racistas, xenófobos, maoistas, ou pior, dizem que estamos feitos com o Rio… o que lhes apetecer.
– Pois, pá, tens toda a razão, mas temos que dar a volta ao texto. Tu é que és homem para resolver isto.
– Eu?
– Sim, pá. Armas-te em presidente da câmara, vais lá ver o que se passa…
– Mas eu só tenho a ver com Lisboa e os sacanas vêm de toda a parte.
– És um gajo importante, pá, não és ministro mas podias ser, és dos nossos, é o que interessa.
– Pois, mas o que lhes hei-de dizer? Não posso comprometer o governo, estás a perceber?
– É isso mesmo. Podes dizer o que te vier à cabeça sem nos comprometer, tás a ver? Aí é que está o ponto, não é genial?
– Lá isso é, outra coisa não esperaria de ti.
– Deixa-te de elogios. Vais lá, dizes tudo o que eles quiserem ouvir, ficam todos contentes e vão-se embora, que é o que interessa. Vá, não tenhas medo, gaita!
– OK. Vou lá.
À noite…
– Viste aquilo na televisão? Grande performance, não achas?
– Ó pá, fartei-me de rir. Fantástico, prometeste tudo e não deste nada. Ficou tudo para depois, depois veremos, como diz o cego. Parabéns, meu rapaz. Os gajos foram para casa em boa ordem, rabo entrea as pernas. Para já, descalçámos a bota, acabou-se o carnaval, que era o que se pretendia. E marcaste pontos contra o P.N. Santos. Até logo.
4.12.20

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