Aqui há uns tempos, o Irritado, que é burro, atreveu-se a reclamar contra os simpáticos cãezinhos, de raças bem identificadas, que se dedicam à nobre tarefa de morder o respeitável público.
À altura, um bichinho destes tinha comido uma velhota. Quando a GNR o caçou, já o pobre animal estava a palitar os dentinhos, junto ao cadáver da senhora. Nunca mais se ouviu falar no assunto. Não faço ideia do que se terá passado, mas presumo que a besta esteja a bom recato, junto à lareira, a roçagar nas pernas do dono que, comovidamente, lhe afaga o toutiço.
Esta presunção tem razão de ser. Ora vejam:
Há dois ou três dias, um inocente pittbul, quando o patrão abriu, por telecomando, o portão do jardim, atirou-se de rompante pela rua fora a fim de morder, diz-se, a bola com que uns rapazes jogavam. Com tanto azar, coitadinho, que, ao passar por um deles, lhe deu uma suave patada, o que, segundo os jornais, causou uns arranhões na pilinha e nos tomatinhos do estúpido indivíduo, que não tinha nada que andar para ali a jogar à bola.
Pois bem, o caso teve seguimento judicial. Que diabo, estamos num Estado de direito! E sabem qual foi o resultado? O animalzinho, coitadinho, está em prisão domiciliária! Quando, daqui a uns dias, o seu extremoso proprietário abrir o portão, quem sabe se o luluzinho não come outra velhota, tão estúpida como o rapaz, ou como a outra que, por passar a uma porta qualquer, se encontra muito sossegadinha a fazer tijolo com uns bocados a menos.
António Borges de Carvalho

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