Há não sei quantos anos, muitos, surgiu neste jardim uma senhora, de origem russo-angolana, casada com um congolês-ou-coisa-que-o-valha, cheia de dinheiro. A talentosa cidadã, perante o deslumbramento geral, desatou a comprar tudo o que lhe apeteceu, sendo objecto de loas e subserviências de vária ordem, julga-se que bem pagas. Tudo bem. Num sítio onde o dinheiro há décadas não abunda, a senhora conquistou corações, bolsos, personalidades, até uma certa área do “social” da nossa praça se curvou, maravilhada, perante tal cidadã estrangeirificada pelos ventos da História. E, assim, tornou-se louvada proprietária, ou societária “de referência” de inúmeros bens, bancos, refinarias, fábricas, etc., um nunca acabar.
Certo é que havia, há sempre, alguns desconfiados profissionais que tinham dúvidas sobre a origem dos dinheiros que a senhora generosamente distribuía por aí. Dizia tal gente que a massa provinha de manigâncias com dinheiros públicos de Angola, dirigida esta pelo papá da criatura. Mas tais aleivosias, como é natural, não colavam. Se até as grandes revistas internacionais a classificavam com altas notas, era a mulher mais rica de África, o marido era um distinto coleccionador da arte, tudo uma maravilha, que dizer?
Eis senão quando quando, lá pelas áfricas, as coisas mudaram, o papá foi substituído por outro, tão poderoso quanto ele, que resolveu pôr em dúvida a legitimidade original dos dinheiros que, por cá, eram exibidos. Tal como o papá, o novo soba domina a procuradoria da república local, só que para o efeito contrário ao do anterior, o que muito contribui para a credibilidade do sistema. Uma chatice.
No nosso jardim, multiplicaram-se as más línguas, surgidas como cogumelos entre muitos dos seus antigos admiradores. Gente do calibre da dona Gomes desatou aos gritos, jornais que eram servis passaram a críticos. Tudo mudou, como por encanto. A senhora, indignada, recorre à Justiça, andam a caluniá-la, ela, coitada, que a partir de pequenos negócios, mais que legítimos, construiu um império. Que despautério!
E agora? Ela é dona e senhora de inúmeros bens que comprou e pagou. Não há quem se queixe de “imparidades”. Que fazer? Se o homem forte lá do sítio começar a dizer que os bens dela são dele, que fazer?
O IRRITADO não tem opinião, como acima se lê. Mas algo lhe diz que esta guerra, de uma forma ou de outra, nos vai cair em cima.
3.1.20

Deixe um comentário