Aqui há dias, estava um belo solinho, comprei o jornal e sentei-me numa esplanada da Avenida da República a beber uma bica. Por lá fiquei hora e meia, li os títulos, fiz as palavras cruzadas, e olhei à volta, ou melhor, à frente. A paisagem é dominada por duas formidáveis realizações da CM do senhor Me.dina, a via única para carros e a tão celebrada ciclovia, a tal que nos vai pôr à frente das “cidades sustentáveis” e dar “vida sã” aos lisboetas.
A via única (nos dois sentidos) é uma maravilha. Ali ao pé de mim, parou um táxi. Lá dentro, um senhor de idade, que deve ter tido um AVC ou coisa que o valha, abriu a porta, mas não foi capaz de a utilizar, isto é, não conseguiu sair. Solícito, saiu o motorista, deu a volta, veio ajudar o passageiro. Tirou a bengala cá para fora, puxou uma das pernas do senhor com todo o cuidado, depois a outra, pôs-lhe os pés no chão, puxou-o pelos braços e, uma vez cá fora devolveu-lhe a bengala e mandou-o em paz. Entretanto, lembrou-se que o velhinho ainda não tinha pago a corrida. Foi atrás dele. O senhor pediu desculpa e pagou com uma nota da cinquenta. Não tendo troco, o motorista foi ao café da minha esplanada com a nota. Após algumas reticências do patrão, lá lha trocaram. Deu o troco ao cliente, meteu-se no carro e… o problema é que, entretanto, havia mais uns trinta carros entupidos atrás dele, soavam buzinas, o cruzamento anterior estava engarrafado, os semáforos eram já inúteis, etc. O motorista do táxi resolveu responder a um tipo que o insultava, foi uma fita para os separar, obra de vários passantes. Tinha passado um quarto de hora, ou mais. Diverti-me imenso com a cena. Uma vez serenadas as coisas, o trânsito voltou a relativa normalidade. Até que… há um tipo que resolve estacionar. Não teria muito jeito para aquilo, nem a manobra é fácil, já a faixa parece ter sido concebida para a dificultar. Trânsito outra vez entupido, mais buzinas, mais nervos, seu azelha, vai tirar a carta, etc., isto em versão delicada. Passada mais esta cena, voltei a olhar pacificamente a avenida. Resolvi ocupar-me com a observação da ciclovia. Assim fiquei mais uma boa hora, desta vez a beber uma imperial para que os funcionários da esplanada não me chateassem. Contei então o número de ciclistas que passaram: um. Para não ficar à espera de outro mais uma hora, fui à minha vida.
No jornal que lia, tive a dita de me debruçar sobre o segundo deslizamento de terras dos últimos dias. Não sei quantos desalojados, casas em perigo, uma chatice, promessas da câmara, etc.
Dias depois, a ponte de Alcântara dava de si. Por acaso não caiu nenhum carro em cima do comboio, o que deve encher de orgulho o peito ilustre do senhor Me.dina. O mesmo no que respeita à cratera Avenida de Ceuta onde, também para dita do mesmo, ninguém se enfiou.
E pus-me a pensar. Quanto custou à CML estreitar a avenida de forma a dar cabo da vida às pessoas, e construir uma ciclovia do lá vai um, quem sabe se à imagem das auto-estradas do Sócrates e do Costa? Não sei quanto, mas foram uns milhões, ai foram foram. Se calhar, com umas centenas de milhar tinha-se fiscalizado e roforçado a ponte, tinha-se consolidado os taludes, tinha-se evitado a cratera, e ainda sobrava muito dinheiro para alguma coisa útil.
Se imaginarmos que, como apregoa a “informação”, o senhor Me.dina e seus rapazes poderão ficar no poleiro mais uns anos, bem podemos lamentar a nossa condição de alfacinhas.
24.3.17

Deixe um comentário