Em antena, dona Odete Santos, mais aquela senhora da pastinha na testa que é a nova patroa do PSD em Lisboa. Não vi tudo. Fugi. Odete cospe um ódio de tal maneira concentrado, refinado, em estado puro, sem misturas, sem cambiantes, um ódio total, retorcido, seco, duro, profundo, um ódio elaborado, aboborado em anos e anos de educação, ódio de madrassa, ódio de quem recusa tudo o que não seja o que vem num livro qualquer, ou o que leu num livro qualquer, ou que lhe instilaram, anos e anos a fio numa escola qualquer. Ódio que recusa a civilização, que propõe a barbárie, que recusa terceiros, que parte de uma verdade única e total. Ódio virulento, que tudo torce, tudo inverte, tudo questiona a não ser o próprio ódio. Ódio que não é cego, que sabe o que quer destruir, que de mais nada cuida senão de si próprio, ódio da estirpe do fascismo islâmico, cuspido, atirado à cara dos outros, agressivo, sem escrúpulo, acrítico, ódio que não é estúpido, é pensado, niilista, fundamental, ódio de escola, de formação, de afirmação, de escarro sobre quem dele não partilha.
Para a senhora, as torres gémeas não caíram, três mil pessoas não morreram, nada há a lembrar a não ser Salvador Allende e o seu 11 de Setembro. Pinochet e Fidel não são duas faces da moeda do totalitarismo, não senhor, Fidel é um santo, Pinochet um demónio. Kim Jong Il é um herói, Pol Pot um traidor. Não, não houve nenhum atentado em 11 de Setembro, em Nova Iorque, houve tão só, noutro ano, muito antes, a invasão do palácio onde, em Santiago, fervilhava o socialismo real.
Há momentos em que a natureza do PC, habitualmente enroupado em democráticas vestes, vem ao de cima na sua crueza, na sua verdade, no seu ódio mortal à democracia, a quem a representa e a quem gosta de viver nela. Nesta medida, fiquei grato à Odete. É que, no clima pastoso em que vivemos, podemos tender a esquecer quem é quem, e quem quer o quê.
António Borges de Carvalho

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