Segundo as opiniões oficiais, de Belém a São Bento, passando pela chamada comunicação social, as nossas queridas taxas de juro são “normais”, “não são motivo de inquietação”, “inserem-se na evolução genérica dos mercados”, etc., e até, diz Sua Excelência do Costume, têm que ser deduzidas de umas décimas, em virtude do acréscimo da taxa de inflacção na euro-zona e arredores.
Aqui há dias, havia unanimidade na apreciação da desgraça, que surgiria ao atingirmos os 4%. De um dia para o outro, todas as opiniões mudaram cento e oitenta graus.
Também unanimemente, ou quase, os 4% ora atingidos são atribuídos a “causas externas”, isto é, as taxas aplicadas ao tuga, se sobem, é porque o BCE, é porque a CE, é porque a Alemanha, é porque a Merkel, é porque o Trump, é porque o Junker, é porque há uma conspiração dos grandes contra os pequenos, é porque, além fronteiras, as coisas mudam e nos arrastam.
O IRRITADO, do alto da sua total incompetência nestas matérias, coisa que se passa com a generalidade do indigenato, não pode deixar de estar de acordo com tão doutas e bem informadas opiniões. É por isso que a sua ignorância se atreve a olhar para uns gráficos que andam por aí a dizer que as nossas taxas são 2,2 vezes as italianas e 2,86 vezes as espanholas. Como a Itália e a Espanha são nossas companheiras de desgraça, dá ideia de que as taxas, por influência externa, deviam ser outras. Ou seja, o que, no nosso caso, faz a diferença, não são causas exteriores, iguais ou parecidas para os três. Por outras palavras, mais do dobro nas nossas taxas em relação às dos outros infelizes tem a ver… com culpas internas! Interpretação esta que só pode ser atribuída à supracitada ignorância, como é evidente.
Andou o governo anterior, e nós todos, a fazer das tripas coração para baixar as taxas, e vem a geringonça pôr as coisas outra vez “no sítio”. Mais uma reversão, não é?
12.1.17

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