É conhecida a tendência nacional para o caguinchismo. Foi o árbitro, foi o calor, foi o frio, foram as algas, foi a CE, a UE, foi Bruxelas, foi Angola, foi a Dilma, foi o raio que os parta. Nós é que não fomos. Com o alvorecer da geringonça, o caguinchismo ganhou honras de Estado. Temos inimigos por toda a parte. A culpa é de tudo e mais alguma coisa, não temos quem nos defenda, o mar salgado absorve as nossas lágrimas, ninguém quer saber, os inimigos acastelam-se por toda a parte, sim, a culpa não é dos cálculos do Centeno, não é das reversões, da falta de confiança, não é dos aumentos da função pública e outras maravilhosas benesses, é o dinheirinho que não entra nem à lei da bala, são os ricos que não investem, os pobres que não trabalham, o Verão que castiga.
Bem vistas as coisas, há remédio: cair a quatro patas em cima do contribuinte. Estamo-nos nas tintas para o contribuinte. É malhar nele! O contribuinte é, por definição, um pecador, deve ser perseguido, chateado, chupado, não com os pezinhos de lã do Passos, quem diria?, mas com a serena razão do Costa. Havemos de saber tudo o que tem e não tem: com suspeitas ou sem elas, vamos-lhe às contas do banco, taxamos os confessionários, aumentamos o IMI, criamos a contribuição da protecção civil, municipalizamos as florestas, os ricaços que ganham mais de mil euros por mês vão ver como elas lhes mordem. Os contribuintes são, se bem pensarmos, os maiores culpados. Nós, enquanto guardiões da moral republicana, aplicamo-la passando o caguinchismo para os contribuintes, queixem-se se quiserem, nós, como dizia um dos nossos mais ilustres ideólogos em relação à Alemanha, estamo-nos marimbando para eles. Demos o exemplo da caguinchice, sigam-no que nós ligamos tanto a isso como os inimigos externos nos ligam a nós: pevas, népias, zero.
E assim vai a Pátria.
20.8.16

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