O célebre storyteller Tavares, do alto da sua arrogante prosápia, declara, preto no branco, que a sua última produção literária foi fruto de intensíssima investigação e que os factos históricos e outros dados nela referidos foram submetidos a rigorosa e científica triagem.
Quem usa folhear os livros antes de os comprar pode assegurar-se da monumental pesporrência do autor. Diz o fulano, nem mais nem menos, que “garante… aos caçadores de erros, a inutilidade dos seus esforços”.
Já devem ter percebido que o autor destas linhas não comprou a história. Não quer contribuir para aumentar o volume do ego do homem, só comparável ao do senhor Saramago em antipatia e auto-convencimento.
No entanto, um “caçador de erros” das relações do subscritor deu-lhe algumas dicas interessantes a este respeito. Lembremos duas delas, como mero exemplo: o homem diz que o generalíssimo Franco esteve exilado nas Baleares, sabendo toda a gente que a coisa se passou nas Canárias; o homem fala num toureiro que lidava por “chicuelinas”, num altura em que o autor da sorte tinha quatro anos.
Nada disto teria qualquer importância não fosse a presunção do fulano. A ficção é livre e este tipo de erros não acrescenta nem desacrescenta qualidade aos escritos. Intolerável é o declarado desprezo pelos “caçadores de erros”, como se o autor fosse um semideus a quem o comum dos mortais não chega à fímbria das vestes.
Pois que fique o contador de histórias cheio de taco a vender livros, ainda que privado da ajuda dos que, como o signatário, não tolera toleirões nem gajos com o rei na barriga e um patético desprezo pelo seu semelhante.
António Borges de Carvalho

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