IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


AVENTURAS DE UM PARLAPATÃO COM SORTE

A sorte de Soares coincidiu com a nossa num tempo curto, mas importante. Entregue o ultramar à URSS, de acordo com o chamado “pacto de Paris”, já não havia desculpa para Cunhal continuar incendiar as “massas”. O prometido, da parte de Soares, estava cumprido. Internamente, Cunhal tinha que cumprir também, com a especial ajudinha do parceiro, que o viria a considerar “indispensável à democracia”. Além disso, a fúria popular contra sovietização do país era de tal ordem, que se transformou no cavalo certo. Urgia montá-lo para não perder a corrida e não ser metido no saco em que a malta já tinha posto o camarada Álvaro.

Depois, a conquista do poder não foi difícil. Sem maiorias que se vissem, Soares fez as alianças que mais lhe convinham, ora com o CDS, ora com o PSD, ora, quando as coisas corriam mal, com o FMI. Jurou vingança contra Eanes, um chato intrometido.

Sá Carneiro foi o primeiro a fazer-lhe frente, a ele e aos diversos bandos de artistas que sempre povoaram o PSD. Houve o “interregno” da AD, que durou pouco, aliás como Sá Carneiro. O imperador voltou. Entretanto, houve que limpar a casa. Aos poucos, foi funcionando o cilindro: foi-se o Manuel Serra, foi-se o Salgado Zenha, foi-se o Rui Mateus, e mais uma data de gente foi abolida. Ai de quem lhe tocasse a fímbria das augustas vestes do nosso homem. Eanes que o diga. É certo que houve alguns, mais espertos ou mais resilientes, que se foram deixando ficar, Sampaio e Guterres, por exemplo. Ao tempo, Soares não conseguiu fazer-lhes a cama, mas ficou à espera de poder servir-se deles. Cavaco fê-la, mas durou pouco, já que Soares voltaria pela porta do cavalo do poder, sita em Belém, e dedicou a vida e o cargo a dar-lhe cabo do juízo, num entendimento assaz original, mas muito apreciado, da função do ocupante do palácio real.

E lá foi apoiar Sampaio, o chefe do ex-secretariado, odiosa organização. É assim que tem que ser. É preciso cavalgar os bons cavalos, os que podem ganhar, mesmo que se engula uns sapos pelo caminho. O tempo viria a demonstrar a razão que lhe assistia quando Sampaio veio a usar um poder que, segundo a antiga opinião do imperador, lhe não assistia. E muito bem, terá pensado, as coisas são o que são, dependendo do momento. Para correr com o “inimigo”, interpreta-se a Constituição de pernas para o ar. E muito bem. O que está certo é o que convém, o resto é conversa antidemocrática.

Mais tarde, por azar ou distracção sua, Cavaco por duas vezes o contrariou, indo parar a Belém. E ele, que nem sequer tinha apoiado o rapazola de Vilar de Maçada (o que é isso?), viu-se na contingência de o aturar. O tal rapazola veio a revelar-se uma chatice, cheiinho de rabos de palha e de esqueletos no armário. Paciência, se é dos nossos ou, pelo menos, não é dos deles, há que virar o bico ao prego e apoiá-lo.

Na idade provecta, já não há muito a fazer. Esgotadas as “razões”, fica a verve e as servis simpatias da “informação”. A luta continua, como diria o velho camarada Cunhal. Quem não é comigo é contra mim, ora essa! Já nada havendo no deserto do socialismo, agarremo-nos à retórica do Alegre, ex-amigo, ex-inimigo, amigo. Isto de democracia é coisa de amigos. Quem não for amigo é para cilindrar, os neoliberais (que tal coisa não são, como ele sabe) passam a fascistas, salazaristas (coisas que também nunca foram, como ele sabe), cambada, políticos, juízes, o que der jeito é para demolir, sendo certo que, para o camartelo da “informação”, o que vale é o que vende jornais e dá publicidade.

Apesar de tudo, ainda havia, no fundo de todos nós, alguma compreensão, até apreço, por certos feitos de um passado já distante. Agora, o que pode restar disso? Talvez alguma caridade para com um velho que, sem perder a tineta (única desculpa que podia ter) traz ao de cima a verdadeira face de um homem mau.

 

7.12.14

 

António Borges de Carvalho



10 respostas a “AVENTURAS DE UM PARLAPATÃO COM SORTE”

  1. Um retrato suave, a meu ver, mas ainda assim notável. Daqueles posts do Irritado que dá gosto ler. Só é pena o «trás» a estragar o final, de contrário perfeito.

    1. Imperdoável falha!Já está emendada.Obrigado pelo aviso.

  2. Muito bem. O “trás” é uma minudência que em nada altera a análise perfeita do perfil psicológico do cavalheiro.

    1. Imperdoável falha! Já está emendada.Obrigado pelo aviso.

  3. E eu que julgava nunca comcordar com o ” IRRITADO”Desta vez concordo com”aplauso”

  4. Avatar de XXI (militante PSD)
    XXI (militante PSD)

    Nunca votei em Mário Soares.Sempre votei em Cavaco Silva.Se arrependimento matasse…

    1. Nunca votei no Mário Chulares. Nunca votei na Múmia Cavaca. Graças à carneirada que vota, ganhei as mesmas…

      1. Avatar de XXI (militante PSD)
        XXI (militante PSD)

        Porquê, faz parte do grupo dos “prodígios”? Ou dos “iluminados”? Ou fará parte (mais certo) dos “idealistas”?

        1. Não, só faço parte dos contribuintes chulados. Alguns carneiros também são chulados. Mas acham bem.

  5. Iniciei a vida política muito cedo como dirigente local da Juventude Socialista e fui sócio do PS.Devo muito ao Partido Socialista. Foi lá que pude perceber como funciona a política real. Aperceber-me da profunda corrupção moral e material.Saí do partido que foi o único onde militei.Até hoje fiquei vacinado. Conheço pessoalmente algumas figuras e a podridão que escondem debaixo da máscara social.Não voto. Fiquei impermeabilizado à propaganda e ao ilusionismo.De Soares nada há a dizer. O Dr Rui Mateus traçou-lhe o perfil a cores e a 3D.

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