Justamente indignados com as suas condições de trabalho, os juízes portugueses vieram a público comunicar as suas reivindicações salariais.
A alma do IRRITADO estremece de compaixão pela miserável situação de tão distinta classe.
Além de tudo mais, é a estes ilustres e tão doutos senhores que se deve a invejável situação em que os serviços de Justiça do Estado se encontram há já longos anos. Como é do conhecimento geral, a justiça é rápida, barata, eficaz, justa (não é pleonasmo, é justiça!), tudo funciona às mil maravilhas, os juízes tratam os cidadãos como é merecido num Estado de direito, merecem da população a maior das considerações, são respeitados e amados por toda a gente, trabalham incansável e eficientemente em prol da segurança e da celeridade da justiça, impõem-se à admiração de toda a gente, etc.
Não importa – isso é que é injusto! – que andem para aí a fazer sondagens em que os juízes aparecem abaixo de cão: manobras dos inimigos do Estado de direito. Não importa que a tenebrosa troica diga que a Justiça está péssima: toda a gente sabe que se trata de inimigos da Pátria. Não importa que haja milhares e milhares de cidadãos, a maioria deles, a queixar-se da distintérrima classe: até o Hitler ganhou eleições, não foi?
Por tudo isto, os nossos bem-amados magistrados sentem-se, e com que verdadeira JUSTIÇA, no direito de jamais verem os seus vencimentos diminuídos, a não ser por emergência, só por um ano e no máximo de 3%. De resto, tais remunerações têm que ser, todos os anos, automáticamente aumentadas por valor superior ou igual (pelo menos!) à inflacção. Acresce, como é de ver, que a tabela salarial deverá começar em 3.000 euros e ir por aí acima até aos 7.500. E, como não podem ter tachos por fora, é evidente que terão que ser compensados pela falta do segundo emprego com mais 1.500 euros por mês. Note-se que isto não é para todos! Nos lugares mais altos ou mais altinhos, em vez dos 1.500, querem receber entre 25 e 40 por cento do ordenado a título de despesas da representação. O que fará, com todo o mérito, subir os ordenados – desta feita tax free – para 10.500 euros lá em cima e para uns 9.000 lá no meio.
O IRRITADO chama a atenção de quem de direito para o alto serviço à Pátria que estas propostas dos magistrados representam, bem como para o profundo sentido de solidariedade social que demonstram.
E curva-se, em respeitoso manguito, perante a distintíssima classe.
2.3.14
António Borges de Carvalho

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