IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


RACISMOS

 

Anda, e com toda a razão, o mundo inteiro impressionado com a fotografia de um homem a dois segudos de ser trucidado pelo comboio do metropolitano não sei de onde, na América.

Segundo a imprensa, nacional e internacional e de todas as cores tamanhos e feitios, aconteceu que o infeliz estava na plataforma da estação à espera de transporte, como mais uma data de gente. Tudo normal. Eis senão quando, outro homem, zás!, dá-lhe um encontrão e espeta com ele na vala da linha. A fotografia mostra os esforços desesperados do agredido para saltar cá para fora. Não conseguiu. E lá vem o “cavalo de ferro” dar-lhe cabo dos costados. Ali morreu, estraçalhado, como um cão na auto-estrada. Com a agravante de saber que ia ser estraçalhado e que nada podia fazer. Imagine-se a aflição que sentiu nos segundos que antecederam ter deixado de sentir fosse o que fosse.

Indo um pouco mais longe, diga-se que o assassino era preto e o assassinado asiático.

Agora, imagine-se o que aconteceria se o assassino fosse branco e o assassinado preto. O que se escreveria na imprensa internacional, sobretudo na americana. Mais uma manifestação de  tenebroso racismo! Uma prova provada de que, nos Estados Unidos, a persegição aos pretos continua ao nível dos tempos da escravatura! Uma demonstração dos ódios primários e criminosos que “governam” a sociedade americana. Um sinal claro das consequências do neoliberalismo, do egoísmo levado ao extremo pelos exageros do individualismo capitalista! Durante semanas, ouviríamos psicólogos, sociólogos, politólogos, psiquiatras, enfermeiros, locutores, vizinhos, primos da empregada doméstica, escalpelizando o fenómeno, por unanimidade considerado exemplo marcante de uma sociedade dividida e traumatizada. Os boaventuras sousas santos, por esse mundo fora, aproveitariam para propagandear os seus estudos, as suas brilhantes asserões, conclusões e opiniões.

Mas, raio de azar, o assassino era preto e o assassinado asiático. A coisa passou rapidamente a fait divers, e já pouco se fala nisso. A não ser, é claro, que o assassino é bi-polar, que teve “uma branca”, que o encontrão foi casual digam as testemunhas o contrário ou não, etc. por aí fora. Ainda acaba por ter atenuantes, dado o facto de ser preto.  Ou por ir parar, absolvido, a uma cómoda instituição.

Não me canso de pensar que são da mesma raça os que se podem cruzar. Na humanidade, como na caninidade, há uma só raca, com algumas variantes. Cruzamo-nos, se nos apetecer. As distinções não são de raça, são de caracteres secundários. Não se negue que há, ou haverá sempre, diferenças culturais e civilizacionais que dificultam a convivência, às vezes com indesejáveis consequências. O que não quer dizer que se trate os assuntos com critérios de moda, de perseguição, ou de acicate de maus sentimentos. Que é o que acontece.    

 

10.12.12

 

António Borges de Carvalho



3 respostas a “RACISMOS”

  1. Li sobre o caso, e parece não ter sido assim tão aleatório: o homicida (preto) empurrou a vítima (asiático) durante uma altercação. Não percebi bem quem a começou. No entanto, o mais chocante é o que se passou depois: o homem levou 22 penosos segundos a tentar voltar à plataforma, sem que nenhum dos presentes o ajudasse. Todos ficaram a olhar. E enquanto foi puxado dos carris, e um médico tentou reanimá-lo (sem sucesso), tudo o que fizeram foi tirar fotos com os telemóveis. Em adição, a tal foto tirada momentos antes da morte foi parar à 1ª página do New York Times, do Sr. Murdoch, o que motivou inevitáveis e infindáveis discussões sobre a ética da imprensa. Tudo isto teve ainda mais impacto porque reaviva um medo colectivo, partilhado por milhões que utilizam o metro: qualquer um pode ser empurrado para os carris. Basta um segundo, um acidente, ou um maluco. E como este e outros casos demonstram, tudo o que podemos esperar dos demais é apatia e morbidez. Que raio de sociedade, não é?

  2. Quanto à questão racial, nenhuma fonte a menciona, claro. É evidente que a raça do homicida pesa no tratamento que recebe em todos os media ocidentais; mas, como o Irritado sabe, os EUA são um caso à parte. Além de ser a pátria do politicamente correcto, sem medo (ou noção) do ridículo, os tempos da escravatura e da segregação racial estão ainda demasiado frescos. Parece incrível, mas os linchamentos de pretos eram comuns na América profunda, há meras décadas; numa nação que passa a vida a gabar-se da sua democracia, liberdade, igualdade, e outras balelas bonitas, é de certa forma compreensível esta expiação histérica de um passado tão recente, e tão atroz. É por isso que um branco/amarelo/azul atirar um preto para os carris é racismo, e o inverso é apenas um incidente infeliz, certamente motivado por causas sociais. E é por isso que não há lá pretos ou negros, só há “afro-americanos”, e quem o esquecer é imediatamente racista, nazista, e daí para baixo. Na Europa, também se nota isto – continuamos a ser os mauzões do colonialismo, das cruzadas, etc. – mas creio que, por comparação, somos bem menos histéricos que os americanos. Como em tudo, aliás.

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