Atendendo aos brilhantíssimos resultados obtidos pela Grécia em consequência originalidade política e social com que acatou as regras de auxílio financeiro que se comprometeu a cumprir, o dr. Mário Soares veio, do remanso do dourado gabinete que o próprio aluga ao Estado para o próprio se instalar, decretar que isso de acordos não é para cumprir, e que o PS tem a estrita obrigação de des-assinar os acordos que negociou e assinou.
Em clássica inspiração, certamente por Zeus determinada, o nosso Grego disse de sua justiça. Veja-se a profunda coerência que o rei dos deuses lhe instilou nas meninges: ele que, com a grandeza dos iluminados, chamou por duas vezes o FMI às lusitanas plagas, ele, que chamou Hernâni Lopes, por exemplo, para aplicar os draconianos projectos da dona Teresa Minassian, ele que, no auge do sacrifício pela Pátria, chegou ao ponto de lançar impostos retroactivos, ele, republicano, socialista e laico, vem agora condenar não só os que executam programas do tipo dos que tanto acarinhou, vem dizer que não cumpram, que borreguem, que mandem a troika à fava!
Mais esclarecido parecer é difícil de imaginar.
Tudo , porém, se justifica. Ele sabe, não como dizem as eleições por essa Europa fora, que “o povo europeu não quer isso (a Europa de mal a pior)” e que o mesmo povo “sempre defendeu uma Europa social e não uma Europa liberal”. No douto parecer de Soares, o Grego, o povo europeu (que povo?) não votou, não escolheu governos, não formou maiorias. Nada quis. Ele, Soares, o Grego, é que sabe o que o povo europeu quer. O que o povo europeu quer é o que Soares, o Grego, determina que ele quer! Mais Estado! Mais controlo! Mais autoridades, mais regulamentos, mais funcionários, mais entidades, mais fundações, mais impostos, mais, mais, mais. Nada de liberalismos. Estado. Seja ele os Estados nacionais, seja o mega Estado de Bruxelas. Que importa que os povos europeus estejam controlados até ao tutano por regulamentos, directivas, espartilhos, leis, leisinhas e leisetas? É preciso mais! Soares, o Grego, determina que, se o Estado social passar a ser sustentável, então “o desenvolvimento da Europa desaparece”.
Por cá, o governo, que fez uma acordo com os sindicatos democráticos, “não dialoga com os sindicatos”. O governo, que passa a vida a (tentar) explicar-se, “não dialoga com o país”. Crime dos crimes, o governo,que passa a vida a responder, no Parlamento, às mais rebuscadas questões, “não dialoga com o principal partido da oposição”. Por isso, o principal partido da oposição deverá, o mais depressa possível, rasgar os acordos que firmou, não por causa dos ditos, mas para fazer oposição, para dar cabo do governo.
Que importa que a Europa se prepare – toda a gente sabe, menos Soares, o Grego – para lançar, com êxito ou sem ele, programas para a economia e o emprego? Que importa que seja evidente que o governo está a fazer contas e recontas para se poder apresentar com alguma credibilidade à execução de tais programas? Que importa que, para tal, seja preciso demonstrar capacidade para acesso a eles e que isso implique uma disciplina tão férrea como a que Soares, o Grego, aplicou noutros tempos? Nada.
Para Soares, o Grego, não importa. O que importa é que o governo dure pouco, que a credibilidade do país caia no esgoto do socialismo – como se lá não estivesse já – e que o poder regresse às mãos dos seus. É isso o importante. O resto são cantigas neo-liberais, não é?
9.5.12
António Borges de Carvalho

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