O IRRITADO copiou, para epigrafar este post, o título, de igual teor, de um editorial do “Público” de ontem. Para o pôr de pernas para o ar, como não pode deixar de ser.
No advento do guterrismo, como todos estarão lembrados, o governo cedeu às pressões de uma chusma de bem pensantes e deitou para o caixote uns milhões (de contos!) que já estavam gastos em trabalhos de construção da barragem de Foz-Côa.
Tratava-se de “salvar” uns bonecos eventualmente escavados na rocha por uns pitecantropos quaisquer. O resultado foi, para além dos referidos milhões deitados ao lixo, ter-se arranjado uma despesa de outros tantos para criar um parque arqueológico ou coisa que o valha, provido de uma monstruosa mastaba, coisa que, para além dos que lá ganham simpáticos ordenados, ninguém que se veja frequenta, mas continua e continuará a dar despesa, em vez de produzir riqueza.
As vozes que, na altura, alertaram para este crime, propondo a conservação museológica de tais testemunhos da arte do homo erectus, foram acusadas de tudo e mais alguma coisa pelos habituais próceres do politicamente correcto, Guterres e o PS à cabeça.
Agora, a obscura direcção do “Público”, a respeito da barragem de Foz Tua, retoma argumentação paralela, desta vez a propósito das alterações que a obra vai provocar nos “bens culturais protegidos” pela UNESCO, isto é, na a paisagem da região.
Gostaria de saber o que ganhamos – é o caso do fado – com as classificações da UNESCO. Fica para outra altura.
Para já, notemos que os que se revoltam contra o “crime” são os mesmos que incensam as chamadas energias renováveis, que elogiam a política dos moinhos de vento, alarvidade energética que custa e continuará a custar biliões às pessoas, isto para além de ter uma influência muito mais brutal na paisagem, em inúmeras paisagens, do que a criação de uma paisagem nova, natural q.b., que surgirá com a realização do projecto de Foz Tua. Os mesmos que são capazes de defender a ocupação, a qualquer preço, de largas centenas de milhar de hectares com coberto vegetal destinado a bio-combustíveis!
Em matéria de coerência, estamos conversados. As energias renováveis são uma maravilha, excepto quando excitam a sensibilidade das almas puras da correcção e da moda.
Afinal, não estávamos tão conversados quanto o IRRITADO pensava. É que foi o sucessor político do camarada Guterres quem tomou a decisão de construir a barragem. Agora é que estamos mesmo conversados.
8.12.11
António Borges de Carvalho

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