O anúncio da demolição do Estoril-Sol foi, há tempos, uma notícia agri-doce. Por um lado, era um alívio ver a costa do Estoril livre do mamarracho. Por outro, como já estávamos habituados a vê-lo ali, e todos, de uma ou outra forma, tínhamos recordações ligadas àquilo, fazia uma certa pena.
Vimos, com alguma apreensão, o nascimento do Mirage. Bom, acabada a construção respirámos de alívio. Podia ver-se. Bem enquadrado, cores bonitas, volume harmonioso e, por dentro, um cinco estrelas agradável e funcional. Bom buffet, ainda por cima, ao almoço de Domingo.
Julgo que não houve quem não pensasse que a parede cega a poente do Mirage serviria para, após demolição do mastodonte, continuar em consonância com o novo volume.
Pensamento errado. Baldada esperança. Hoje, publica o Diário de Notícias uma fotografia da maquete dos edifícios a construir. Uma intervenção de dimensões colossais, três torres acaixotadas com mais uns caixotes ao meio. Tudo completamente desenquadrado do Mirage e da paisagem, sem nada a ver com o que aquele parecia implicar. Uma desgraça arquitectónica e paisagística.
Não sou, nunca fui, contra a construção em altura. Mas ali, Deus meu, ali, e depois de parecer que se queria dar à zona uma vocação diferente, misturar alhos com bogalhos é, pelo menos, terceiro-mundista, saloio e, sobretudo, feio.
Tenho, pelo Presidente Capucho, uma consideração pessoal acima de qualquer dúvida. Daqui lhe peço que, se for a tempo, dê uma volta àquilo. Daqui peço a tanta gente da zona que dá ao Irritado a honra de o ler, que fale com o homem, que grite, que mostre indignação. Para que a consciência lhe doa. Pode ser que sirva para alguma coisa.
António Borges de Carvalho

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