IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


DESMERECER DA REPRESENTAÇÃO POLÍTICA

 

Sei que o que o IRRITADO vai escrever suscitará as mais indignadas reclamações.

Não façam cerimónia.

 

O IRRITADO é a favor dos subsídios de reintegração dos deputados, bem como da subvenção vitalícia daqueles que (ainda!) têm direito a ela.

 

Expliquemo-nos.

É voz corrente que os deputados deviam ser menos. De acordo. Pelas contas do IRRITADO, na mesma proporção do Reino Unido, deveria haver mais ou menos cem deputados em Portugal.

É voz corrente que os deputados deviam ter maior ligação aos círculos que os elegeram, designadamente através da instituição de círculos uninominais. O IRRITADO há muito pensa neste assunto, sem conseguir chegar a uma conclusão definitiva.

O raciocínio é simples e imediato: os círculos uninominais facilitariam a relação entre os eleitores e os eleitos. No entanto, os deputados, em Portugal como em todo o mundo, representam a Nação (conceito que a nossa bela Constituição não contempla) ou o Povo em geral, não o círculo que os elegeu. Por outras palavras, na pureza dos princípios, nem círculos eleitorais devia haver, uma vez que ninguém representa quem o não elegeu. Convenhamos que os círculos são, pelos menos, uma necessidade técnica. Aceite-se.

O outro lado da moeda será, entre nós mais que em qualquer outra parte – à excepção do Iraque e quejandos – que o uso exclusivo da solução uninominal criaria uma Parlamento de agentes locais, sem capacidade política outra que não fosse os interesses do seu círculo, até para não deixar de ser eleito na próxima. Seria um Parlamento de caciques.

É voz corrente que a escolha dos candidatos pelos partidos tem o efeito perverso de transformar cada um deles num mero representante das cúpulas partidárias. Talvez assim seja. Por outro lado, no entanto, há que considerar que, ao eleger um Parlamento, os cidadãos estão não só a compor o poder legislativo como o executivo, que dele depende. Ora estes poderes são gerais, não regionais, ou de círculo. Neste sentido, devia haver um único círculo: o do universo eleitoral.

 

É facto que há vozes de sobra a pôr em causa a “utilidade” e o “preço” dos deputados. Mas não há outra solução que não seja tê-los. Até as ditaduras não dispensam um Parlamento, mesmo que fantoche!

Também é facto que os deputados, em Portugal, são miseravelmente pagos, o que impede, por evidentes razões, que se possa ir buscar à sociedade civil os melhores, os mais prometedores, os que melhores provas têm prestado. A isto acresce o que se lhes exige em sacrifícios que vão muito para além do fraco estipêndio: exposição pública – vida privada incluída – suspeições “obrigatórias”, declarações pessoais a que o cidadão comum não está sujeito, impedimento de exercício profissional em áreas de que tratou no poder, informal mas evidente presunção de culpa, etc.

 

Com algumas honrosas excepções, a atracção pela função acontece a quem nada tem a perder, pelo contrário, com esta montanha de constrangimentos. A representação popular sofre com isso, como é evidente.

Tanto o subsídio de reintegração como o vitalício tinham a virtualidade de amenizar um pouco o que aos deputados é exigido em termos pessoais e patrimoniais.

Acabaram com isso. A qualidade geral do Parlamento desceu em conformidade.

 

Se se reduzisse drasticamente o número de deputados seria possível escolhê-los com outros critérios e outros interessados, pagando em conformidade com as funções e gastando muito menos. Poder-se-ia, até (hipótese académica), a partir de um determinado mínimo, pagar-lhes o que na vida “civil” ganhavam. Se calhar ainda sobrava verba para os negregados subsídios.

 

Por tudo isto, o IRRITADO vê com inquietação o clamor mediático sobre os cinco deputados que têm direito, e requereram, o subsídio vitalício, mais a meia dúzia que fez o mesmo no que à reintegração diz respeito.

Não é com estes clamores, pelo menos idiotas, que se defende o regime ou as suas instituições. Não é com críticas deslocadas e absurdas que se procura melhorá-los.

A não ser que, como parece ser hábito instalado, se esgrima com generalizações ilegítimas, muito mais contribuindo para afastar os eleitos dos eleitores de que certas indesculpáveis deficiências daqueles.

 

14.6.11

 

António Borges de Carvalho



5 respostas a “DESMERECER DA REPRESENTAÇÃO POLÍTICA”

  1. Avatar de daniel tecelao
    daniel tecelao

    Poderei estar de acordo com o seu ponto de vista e tambem com o contrário.É assim;Não estou convencido que se pagasse melhor aos deputados,seriam de melhor qualidade.Há por aí muito bicho careta em administrações de empresas pagos princepescamente que não merecem o que ganham.Comparando o que ganham os deputados com a média dos portugueses,estão muitissimo bem pagos,muitos deles ainda têm tachos por fora.A subvenção vitalicia por meia duzia de anos de actividade não deixa de chocar com as pensões de miséria pagas a reformados depois de uma vida de trabalho.

    1. Obrigado pelo comentário. Também não tenho opiniões definitivas sobre o assunto. Mas, dado o estado das coisas, se calhar não era mau alterar o sistema com coragem e profundidade.

  2. Voy a un psiquiatra.Por supuesto!Concordar con el tecelão es un síntoma de enfermedad muy grave, según los manuales de Salud Pública.

  3. Julgo que o equívoco do Irritado é o seguinte: os políticos, e os deputados em particular, não são escolhidos em função das suas competências profissionais, nem do seu mérito pessoal. Não há nenhuma avaliação prévia ou “on the job”, nenhum critério científico e objectivo. Os deputados são simplesmente membros de partidos, e conforme a popularidade desses partidos, são eleitos durante um nº garantido de anos. Temos assim que: 1) O que importa é pertencer a um partido, e subir na sua hierarquia. 2) Sendo os nossos partidos organizações viciadas, que buscam o poder pelo poder, com dinâmicas internas feitas de compadrios e “leis da rolha”, é improvável que alguém sério e competente queira enveredar por tal carreira paralela, em adição à sua profissão. 3) Não havendo qualquer avaliação mínima, e sendo tudo garantido, é a função ideal para medíocres e tachistas. Nada disto tem a ver com o valor de remunerações ou subsídios: é uma questão orgânica da nossa partidocracia. Logo, enquanto não AVALIARMOS e sobretudo RESPONSABILIZARMOS os políticos, aproveitando a embalagem para VARRER os partidos actuais, qualquer discussão está inquinada à partida. Dito de outra forma, e cá está a “generalização injusta” que o Irritado certamente esperava: para os CHULOS IMPUNES que temos, o que recebem actualmente já é obsceno. E quanto menos forem, e menos receberem, tanto melhor.

    1. Subscrevo e aplaudo.

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