Meu rapaz
És a única esperança que nos resta. Só tu poderás acabar, não digo com a miséria e a vergonha em que nos meteram mas, para já, com os seus autores.
Sabes que não é possível país nenhum mais avançado que a Líbia, a Venezuela ou o Burkina Fasso, ser governado pela gente que nos vem, há tantos anos, enganando e arruinando. Apesar disso, somos.
É certo que, no que respeita à economia e às finanças, pouco poderás fazer por nós no curto ou no médio prazo.
Mas podes mostrar à Nação a diferença entre a honradez e a falta dela, entre a responsabilidade e a trafulhice, entre a competência e a incompetência, entre a verdade e a mentira. É esta a revolução de que precisamos ou, se quiseres, a mais fundamental e importante das mudanças imediatamente necessárias.
Depois, terás que abrir caminho para uma sociedade em que se recupere o valor da palavra, em que as pessoas tenham e aceitem livremente as suas responsabilidades em que deixem de ser meras máquinas de reclamação de direitos que só o são na cabeça de quem tem do Estado a ideia de um puro provedor de necessidades, mordomias ou subsídios, coisas devidas porque são devidas, não porque se mereçam.
Deixa que te dê alguns conselhos, feitos, se não de sabedoria, pelo menos de experiência.
Não respondas mais aos canalhas que passam a vida a insultar-te, por mais nada ter a dizer ou de mais nada ser capazes. Diz-lhes, e a todos nós, que a palavras loucas orelhas moucas. Não lhes dês mais conversa. Marimba neles.
Batalha para arranjar uma boa equipa. Gente da tua geração. Gente descomprometida e sabedora. Apresenta-nos, quanto antes, a tua gente, o teu Governo. Abana o brio dos competentes acomodados, para que assumam o serviço público de que precisamos.
Declara o fim dos cargos públicos de nomeação partidária. Anuncia que todos os titulares de cargos de chefia serão substituídos por concurso público. Anuncia a criação de uma Administração Pública profissionalizada e com base no mérito. Anuncia que não tolerarás mais corporativismos de espécie nenhuma, venham eles dos juízes, dos procuradores, dos professores ou das peixeiras.
Apresenta, quanto antes, o teu programa. Se esta gente continua a ter razão quando diz que o não tens, a mentira acaba por se instalar!
Como há matérias em que pouco podes fazer – a ditadura do FMI é inevitável – não vale a pena esbracejar. Deixa o esbracejar por conta deles.
Aproveita a oportunidade para dar prioridade a uma grande volta nos vícios e maus costumes por toda a parte instalados.
O teu programa tem que ser este: boa gente, competente e sem rabos de palha. Muita coragem: não temas que te chamem “liberal”, como se fosse um insulto. Explica que nunca houve democracia sem liberalismo, explica que a democracia, a única que existe, se chama democracia liberal.
Acaba, de uma vez por todas, de falar ou deixar falar em consensos, coligações e cenários, ante ou pós eleitorais. O teu programa é a tua vitória, sem coligações, sem consensos, sem compromissos outros que não sejam os da honradez e da verdade.
Dir-se-á que a verdade de nada valeu à tua antecessora. Mas quem ainda acreditar que somos capazes de alterar o rumo de catástrofe em que seguimos, não deixará, desta, de votar na verdade. Deves jogar nisso, em vez de nos panos quentes de que tantos à tua volta fazem bandeira.
Aí tens. É simples. Eu sei que o que é simples muitas vezes é o mais difícil. Mas vale a pena.
Para já, fico-me por aqui.
Boa sorte
13.4.11
António Borges de Carvalho

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