É recorrente o recurso à greve pela malta dos transportes. Trata-se de uns senhores “devidamente” empregados, isto é, sem nenhuma espécie de “precariedade”.
Os mais críticos alegam que estas greves são injustas e, objectivamente, constituem um feroz atentado aos legítimos interesses e direitos da sociedade civil no seu todo. Igualmente dizem que os grevistas andam, objectivamente, a fazer troça dos desempregados e dos que “sofrem” com a “precariedade”. Têm razão.
Os mais “compreensivos” tendem a achar que os grevistas, coitados, são pagos miseravelmente e têm, por isso, todo o direito a protestar via greves quase diárias.
A ilustrar o que se passa, porém, foi publicada uma resenha da “miséria” em que vivem os grevistas e da “legitimidade” do que andam a fazer.
Os maquinistas do Metropolitano de Lisboa, por exemplo, ganham a módica quantia de 2.850 euros por mês, 14 meses por ano. Há-os também que recebem 3.570, nas mesmas condições. Há pelos menos um que ganhou, em 2010, 4.600 euros/mês x 14. Note-se que, para este artista, com certeza especialista em greves, de um total de 64.000 euros num ano, 11.000 eram relativos ao subsídio de agente único(?) e 5.600 de subsídio de antiguidade. O Metro paga 25 diferentes espécies de subsídios aos seus trabalhadores, somando 3.300.000 euros por ano (antiguidade) e 1.100.000 euros (agente único). Há, ainda os “maquinistas de manobras”, os quais, dada a altíssima tecnologia de que são exímios agentes, recebem uns tostões a mais, cifrados em 6.300.000 euros por ano.
A rapaziada da CP, por seu lado, é contemplada com complementos de ordenado de 195 espécies, sendo estas justas prebendas mais de metade dos custos com pessoal da nossa querida CP. Por miúdos, teremos que a CP gastou em 2010 uns 4.000.000 de euros em subsídios “de condução”, 2.400.000 em “prémios de produtividade”, 3.000.000 em “prémios de chefia” e 3.300.000 em diuturnidades.*
Assim se pode ajuizar da justiça das greves que estes tipos e quejandos andam a fazer, certamente sob as ordens bandidas do Carvalho da Silva, do Jerónimo e do Louça.
Assim se vê o que a sociedade portuguesa deve a esta maralha.
Assim se vê como é possível ter a “consciência social” necessária a contribuir para a destruição do tecido social.
Assim se vê como o exercício de um direito legítimo pode ser objecto de abusos tais que melhor se chamariam crimes públicos ou sociais. Com a característica geral de ficar impunes.
Calcule-se o que aconteceria se alguém pusesse em causa este tipo de abusos. A tropa fandanga do Carvalho da Silva, do Jerónimo e do Louça saltaria para as ruas aos milhares, os comentadores dar-lhes-iam carradas de razão, as televisões embandeirariam em arco, e as rádios, os jornais, as revistas, condenariam em uníssono o tenebroso atentado à liberdade e ao direito cometidos por esse alguém.
Assim se prova que Portugal, enquanto consciência crítica individual e colectiva, já não existe.
3.4.11
António Borges de Carvalho
*Fonte: Jornal “Sol”.

Deixe um comentário