Os distintos magistrados que temos não se contentam com coisa nenhuma. Sejam judiciais ou da Procuradoria, não há asneira que não façam, não há desprestígio em que se não metam. Os estranhos sindicatos, ou associações sindicais, parecem representar mesmo as respectivas gentes, já que não há um só magistrado que tenha a dignidade e o brio pessoal e profissional necessários para vir a terreiro denunciar os malefícios dessa gente.
Aqui há tempos, num congresso qualquer, foi declarada a guerra ao poder dos eleitos, de forma clara e terminante. O poder político, sim, político, deve passar para as mãos das magistraturas, dizem eles sem que ninguém os mande para casa.
Os distintos magistrados vão agora processar o Estado por lhes ter cortado os vencimentos. Uma classe, coitadinha, tão mal paga! E não há quem os mande ou possa mandar para casa, ou fazer outra coisa onde não seja preciso dignidade.
O senhor PGR, depois das sucessivas vergonhosas actuações com que já brindou a Nação, depois de lançar o seu manto protector, na companhia do senhor PSTJ, sobre o senhor Pinto de Sousa, anuncia agora, triunfante, que vai processar a dona Cândida, outra fabricante de asneiras da sua reiterada confiança, mais os dois senhores que tiveram a ousadia de publicar, em formal despacho, as perguntas que queriam fazer ao senhor Pinto de Sousa mas não fizeram, ao que dizem por não lhes ter sido dado tempo para tal.
Se a alguém, fora deste país, concebesse a Justiça portuguesa como um circo desta ordem – sem ofensa para os circos – dir-lhe-iam que a sua imaginação tinha ido longe demais. Não é possível!
Mas é. É possível e está aí, diante dos nossos olhos, o estado a que chegaram gentes que deviam ser – e como tal se tomam, não sendo – um pilar do Estado de Direito.
Se este tipo de consideração pelo serviço público continuar a prevalecer na sociedade portuguesa, não tarda que os polícias se prendam uns aos outros, que os procuradores mandem encarcerar os militares, os merceeiros matem os marçanos, o Presidente da República faça greve, o senhor Pinto de Sousa mande prender o Presidente da República, e por aí fora.
O Estado, ainda que esfrangalhado, talvez ainda exista em Portugal.
O Estado de Direito foi a ilusão de uma geração falhada: a minha.
2.1.11
António Borges de Carvalho

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