Aqui há um bom par de anos, o autor do IRRITADO fez uma reclamação contra um desmando das finanças. A coisa era tão simples como isto: tinha havido um engano no preenchimento de um papel qualquer, linha 345 em vez de 346, o que custava ao autor uma mão cheia de contos de réis.
Qualquer burocrata com a 4ª classe podia verificar o engano em dois segundos. Mas as coisas, por cá, têm que se lhe diga. A reclamação deu as voltas e reviravoltas necessárias e acabou por ir parar às mãos de um juiz, transformada em alto problema de Justiça.
Passaram 7 anos. As finanças nunca mais lhe devolveram um chavo e o reclamante passou a persona non grata para o respectivo computador, o que lhe causou as mais diversas chatices, como é de timbre na nacional-burocracia.
Um dia, por outra razão qualquer, o reclamante falou com o meritíssimo a quem o importantíssimo processo tinha sido distribuído. Posto ao corrente do que se passava, o homem apontou para uma resma de papéis que chegava ao tecto e, com o melhor dos sorrisos disse:
– O seu caso está algures nesta pilha de papéis. Quando chegar a sua vez, decido.
E não houve nada a fazer. O exemplar cidadão perdeu a cabeça. Não, não se atirou à cara do juiz, tratou foi de meter uma alta cunha. Em três meses o assunto foi resolvido a contento.
Eram passados mais de oito anos. O cidadão a massa que lhe tinham extorquido (grande vitória da cunha), sem juros, claro. O que sofreu durante esse tempo todo jamais será compensado.
Vem isto a propósito das declarações prestadas a um jornal por uns ilustres advogados, protestando contra o facto de haver juízes, na área fiscal, com mais de mil processos atribuídos.
O Dr. Medina Carreira, por seu lado, tem feito saber que tem clientes com processos fiscais por resolver há mais de vinte anos
Quer dizer que, uns 15 anos depois da história acima contada, as coisas estão ainda pior do que estavam à altura.
Aqui temos para que serve o “simplex” e o que valem a incompetência, a demagogia e a propaganda.
23.5.10
António Borges de Carvalho

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