IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


HISTÓRIA ZAROLHA

 

Há muitos anos, ouvi contar este horror:

Um amigo do meu avô materno, malaguenho de nome Gross, esteve refugiado na nossa casa durante não sei quanto tempo – antes de eu nascer – fugido das atrocidades da guerra de Espanha. Era de uma família franquista e tinha um irmão. O pai, um dia, foi preso pelos republicanos, ou comunistas, ou esquerdistas, ou o que lhes queiram chamar. Passou fome de rabo na prisão. Até que, um dia, com a barriga a dar horas, foi presenteado com um magnífico bife. Devorou-o. Depois, os carcereiros levaram-no a outra cela, onde o seu filho mais velho jazia morto, nu, com um naco a menos numa perna.

– Vês de onde saiu o bife que comeste? – perguntaram-lhe.

O homem caiu redondo, morto também.

Conto esta tão espanhola tragédia, não para acusar seja quem for de atrocidades tais, mas para sublinhar que a guerra de Espanha foi um nunca acabar de selvajarias, praticadas por um e outro lado do conflito. Não vale a pena citar as malfeitorias do franquismo, porque essas são propagandeadas todos os dias por toda a parte. Acredito.

 

No regresso da Monarquia, os espanhóis adoptaram uma postura de paz civil, ou porque a memória da guerra estava ainda presente em muitos dos que a tinham vivido, ou por simples bom senso e sentido de futuro.

Aos poucos, porém, o ódio voltou a comandar muitas cabeças. Criou-se então a querela da “memória histórica”, coisa que para mais não serve que para recriar acontecimentos que há já pouco quem tenha vivido. O que, objectiva ou propositadamente, recria sentimentos, emoções e malquerenças que, hoje, já a ninguém aproveitam.

Os historiadores que façam a história, da forma isenta, distante e rigorosa, própria do espírito científico e da lhaneza intelectual.

O que se passa nada tem a ver com isenção, distância e rigor. Trata-se de puro vasculhar na consciência de cada um, à procura de um ódio que devia pertencer, em exclusivo, à tal História.

 

Não sei se o juiz Baltazar Garçon tem competência para mandar exumar cadáveres de revolucionários abatidos pelo franquismo. Não sei se tem competência para julgar seja quem for, isto é, para andar à caça de torcionários que o foram do lado da História de que o senhor Garçon detesta. Não sei se o que se passa é simplesmente uma consequência da ânsia de protagonismo do célebre magistrado. Não sei se os crimes da guerra de Espanha devem, ou não, ser imprescritíveis.

O que sei é que o senhor Garçon foi competente para emitir um mandato de captura internacional para o torcionário Pinochet, mas não se considerou competente para fazer o mesmo a respeito do torcionário Fidel Castro, primeiro com a desculpa de se tratar de um chefe de Estado, depois sem desculpa de espécie nenhuma.

 

Ressuscitar a chamada “memória histórica” é, em si, um erro clamoroso.

Ressuscitá-la como olhos tão zarolhos como os do juiz Garçon e de tantos outros, sedentos de sangue e de póstuma vingança, é, pelo menos, um crime de lesa Pátria.

Tão espanhóis eram uns como outros. Tão selvagem foi o que uns fizeram como o que fizeram os outros. Fazer disso coisa actual é de uma desonestidade sem nome.

 

17.4.10

 

António Borges de Carvalho



9 respostas a “HISTÓRIA ZAROLHA”

  1. A guerra civil de espanha que ceifou 1 milhão de vidas,não foi só protagonizada por espanhois.O golpe franquista só saiu vitorioso com o envolvimento de hHtler,Mussolin e Salazar,alem do apoio do Vaticano.

    1. O IRRITADO pretendeu demonstrar a perversidade praticada por todos os “lados”. Por isso o epíteto “HISTÓRIA ZAROLHA”. Assim, não seja “zarolho”.

    2. Tem toda a razão. É sintomático que o celebrado paladino da esquerda Garzón se comporte como o Richard Nixon do caso Rosenberg, aduzindo os mesmos parciais critérios e falazes ademanes que estiveram em uso no mccarthismo. Digo isto apoiado no pouco que sei dele, pois seguir as façanhas do sujeito não é para mim propriamente uma prioridade e sempre desconfiei de médicos, militares, juízes ou padres “superstars”.Peço desculpa por fazer uma citação, que tem tanto de demorada como de perspicaz.É de um livro de Jean Sévillia, saído há meia dúzia de anos.“Au gré de ses slogans, [le politiquemente correct] joue des époques et des lieux, ressuscitant un phénoméne disparu ou projectant dans les siécles antérieurs une réalité contemporaine.Alors que l’historien doit mesurer le poids subtil des nunances et des circonstances, et faire appel aux domaines annexes á son savoir (géographie, sociologie, économie, démographie, religion, culture), le politiquemente correct gomme la complexité de l’histoire. Il réduit tout à l’affrontement binaire du Bien et du Mal, mais un Bien et un Mal réinterprétés selon la moral d’aujourd’hui. Dés lors, l’histoire constitue un champ d’exorcisme permanent: plus les forces obscures du passé sont anathématisées, plus il faut se justifier de n’entretenir avec elles aucune solidarité. Des personnages, des sociétés et des périodes entiéres sont ainsi diabolisés. Toutefois, ils ne forment qu’un leurre. Ce ne sont pas eux qui sont visés: par procuration, c’est nous.” É um estúpido crime soprar nas brasas de um conflito ainda mal cicatrizado e que medidas destas só podem reacender, nunca aquietar.Claro que o Tecelão teria que opinar como o fez. Na segunda metade do século passado houve uma instituição que parecia útil, a Reader’s Digest. Mas foi contraproducente porque muita gente nunca quis ir além da leitura dos livros condensados, deixando-se imbuir pela subliminar propaganda norte-americana que frequentemente eles continham. Nos nossos dias temos a Wikipédia, que desponta de muitos comentários que leio aqui, através de argumentos aprendidos à pressa por mentes que aquilatam doutrinas, factos e pessoas pela perspectiva simplista dos imprudentes. Por isso ele “esqueceu-se” de aludir a que foi Lenine quem iniciou a política de internacionalizar a revolução do proletariado – e também se descuidou em referir que o ouro do banco de Espanha desapareceu na Rússia para nunca mais ser visto, tido como pagamento pelo auxílio soviético, pago por adiantado e tudo. Como eu não sabia o valor de cor, consultei a Wikipédia: foram 72,6 % das reservas espanholas, preço de amigo.Sobre a intervenção do Vaticano, aí o Tecelão está muito certo. Todos sabemos como a Santa Sé sempre atormentou os indefesos aparatchicks e nunca o Politburo acossou os malvados padres. Basta ler o Rosas – ou tresler outro qualquer historiador honesto.

    3. Houve auxílio internacionalpara as duas partes em conflito. O que confirma as minhas afirmações. No meu post não se toma partido. A intenção é, exactamente, a de condenar os que o fazem 70 anos depois, para daí tirar conclusões, não históricas mas persecutórias.É bom lembrar que um dos grandes defensores da paz social que estas atitudes vêm contrariar foi Santiago Carrilho. Quem de mais insuspeito para confirmar o que escrevi?

  2. Para o Irritado.Estive a ler os seus outros posts, que infelizmente só poderei comentar amanhã. Passei aqui a reler o que escrevi (ler no monitor permite deixar as gralhas pousarem no texto) e reparei que pode haver dúvida a quem me dirigia no que disse. Escrevi para si, é claro. Mas o Tecelão pode ler, ainda que duvido que concorde, para já não dizer que aprenda alguma coisa.

    1. Leio-o sempre com toda a atenção,e todos os dias aprendo,tambem todos os dias discordo e digo não!!!

  3. Um abraço amigo! :-)do Manuel

    1. 4ª vou ao CT. AbraçoABC

      1. Eu também vou.Abraço

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