A mui ilustre e prendada deputada Inês de Medeiros resolveu enviar ao Presidente do Parlamento uma cartinha destinada a angariar fundos para as suas deslocações semanais a Paris, em classe executiva, a 1.200 euros cada.
Em inequívoca demonstração de requintada curialidade, de esmerada educação e de respeito pelo destinatário, a nobre senhora decidiu, antes de mais, mandar a missiva aos jornais a fim de tornar a coisa clara e pública. Veja-se o requinte educacional da aristocrática socialista, a fazer lembrar aqueles tipos que, por saber falar francês e viver em Clichy, acham que são mais que os outros. A diferença é que há quem pense que estes têm desculpa. Não ela, coitada.
Pelo que os jornais publicaram, verifica-se que a inigualável criatura, achando, com toda a justiça, que o povo tem que lhe pagar as viagens a Paris como se Paris ficasse na Freguesia de Santa Isabel, em ponto algum refere que o seu diáfano assento se poderia sentar numa cadeira das usadas nos aviões pelos passageiros comuns, a fim de reduzir quase dez vezes o custo das viagens. É que tal cadeira é, inegavelmente, menos confortável que aquelas a que Sua Excelência está, evidentemente, habituada.
Compreenda-se. Uma tão alta personalidade não pode, salvo inevitável e intolerável queda dos parentes na lama, sentar-se ao lado daqueles a quem exige o pagamento dos bilhetes.
Há limites para tudo, não é?
2.4.10
António Borges de Carvalho

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