O omnipresente Dr. Sampaio “recordou”, não sei onde, as eleições de 1969. Disse o referido senhor que tais eleições mostraram haver “uma perspectiva de trabalho em conjunto” dos que se opunham ao Estado Novo.
Falso.
Em 1969 passou-se exactamente o contrário: as eleições revelaram, não pela primeira vez, a clivagem fundamental entre os que apostavam numa viragem democrática da ditadura e os que, ou queriam simplesmente substituí-la por um regime marxista ultra ditatorial, ou achavam possível instaurar a liberdade política tendo comunistas por parceiros de eleição.
A expressão de tal clivagem ficou marcada pela presença nas urnas, em Lisboa, de duas candidaturas opostas: a do MDP (comunistas e compagnons de route), a que o Dr. Sampaio aderiu, e a da CEUD, chefiada pelo Dr. Mário Soares, que agrupava um largo leque de democratas, republicanos e monárquicos, que apostavam em valores substancialmente diversos dos defendidos pelo MDP/PC, ou seja, que tinham uma visão “ocidental”, ou liberal, da democracia e não a consideravam compatível com o esquema piramidal do centralismo “democrático” ou com a “democracia” dita “proletária”, em vigor na Europa oriental.
O Dr. Sampaio como que lamenta que, “a partir de alguns acontecimentos a seguir ao 25 de Abril”, se tenha quebrado a “visão unitária” das oposições e, só aí, se tenha quebrado o tal unitarismo.
Falso.
Antes de mais, mau grado os entusiasmos subsequentes ao golpe militar, muita gente se opôs, desde a primeira hora, a qualquer “visão unitária”, o contrário do pluralismo democrático. Mesmo o PS que, como os comunistas, usa chavões socialistas, rapidamente tratou de marcar as diferenças, primeiro chamando “democrático” ao seu socialismo, depois opondo-se ao PC e chegando ao ponto de, num momento de iluminada noção das realidades, o próprio Soares ter metido “o socialismo na gaveta”.
O Dr. Sampaio, nesse tempo, militava em facções urbano-burguesas da extrema-esquerda, o MES, a IS e outras organizações que acompanhavam com afã a trajectória dos bolchevistas, atingindo o auge da “democraticidade” quando se opuseram à realização das primeiras eleições livres, em 1975.
Só em 1979 o Dr. Sampaio fez opção pelo socialismo dito democrático do PS, onde alinhou reiteradamente na oposição ao Dr. Soares, tido por desviacionista de direita! E, não esqueçamos, foi o Dr. Sampaio o primeiro membro do PS a advogar e levar a efeito uma aliança eleitoral com o PC.
Que o Dr. Sampaio tenha direito à “evolução” ideológica, se é que a fez, ninguém o poderá negar. Mas mascarar certas fases do seu próprio passado com falsificações da história como a que as suas declarações revelam, esse direito não tem.
1.11.09
António Borges de Carvalho
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