IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


UM VELHO DESESPERADO

 

Verdade ou não, as religiões monoteístas que o senhor Saramago ditirambicamente acusa de invenção, mentira, crime e outras malfeitorias, criaram, moldaram e, em seu tempo, dominaram a civilização a que o senhor Saramago pertence, queira ou não queira, goste ou não goste.

 

Com inspiração divina ou sem ela, a civilização a que o senhor Saramago pertence divulgou coisas magníficas, como a solidariedade humana e o respeito pelo próximo, e coisas horríveis como a crueldade, a intolerância e o imobilismo. A civilização a que o senhor Saramago pertence inspirou génios, como Miguel Ângelo, e pessoas odiosas e odientas, como o senhor Saramago.

 

Se olharmos a religião, qualquer religião monoteísta, é fácil concluir que os males que tem causado e continua a causar à humanidade não advêm da sua prática comum mas das interpretações fundamentalistas, histéricas, fanáticas, agressivas e inumanas que os seus intérpretes lhes quiseram dar.

O mesmo não se passa com certas ideias que, não recorrendo a dogmas mais ou menos metafísicos, como o bolchevismo e o nazismo, são más em si e não consoante a interpretação que se lhes dá.

Pode argumentar-se que, de um tronco comum, estas religiões derivam, para os não crentes, de um só corpo de lendas a que o tempo, a imaginação dos homens, os azares da guerra ou as oportunidades da política foram dando formas diversas. De qualquer maneira, em todas elas é possível encontrar um código de conduta que informa positivamente o comportamento social e que só se tornará indesejável por ausência ou por perversa interpretação.

Pelo que as crenças dos outros, para quem as não aceita, serão más ou boas, não em si mesmas, mas consoante se interpretam e utilizam.

O que o senhor Saramago faz é dar à sua não crença, em princípio legítima, um valor mais fundamentalista que as mais fundamentalistas interpretações dos crentes e um conteúdo de ódio e de intolerância próprios da mais horrível mentalidade, seja qual for a escala de valores não fanáticos que se use para a classificar.

 

Porquê? Dir-se-á que o senhor Saramago é, desde sempre, conhecido pelo seu apego a ideias totalitárias e que há quem tenha sofrido na carne os brutais efeitos da saramagal intolerância. Dir-se-á, com inteira propriedade, que o senhor Saramago é, desde sempre, uma espécie de dono de uma verdade, a sua, que, por definição por ele achada, vale muito mais que as dos outros.

Nada a estranhar, concluir-se-á, nas ora particularmente descabeladas diatribes do homem.       

 

O Irritado arrisca, porém, uma interpretação algo diferente do que seria de esperar.

 

Saramago está às portas da morte.

Amanhã? Daqui a cinco anos? É normal. Que outra coisa poderemos esperar aos oitenta e tal anos e num evidente estado de decrepitude física?

 

Diferente é a postura de cada um na antevisão de tão inelutável acontecimento.

Uns dirão que os espera outra vida ou a continuação desta noutros moldes e que, ainda que seja doloroso deixar de viver a vida como a conhecem, é consolador ter a certeza moral que a morte não será o fim.

Outros pensarão que a morte outra coisa não é senão voltar ao momento anterior ao nascimento, isto é, ao não-ser, o que, em princípio, não causa sofrimento, pela simples razão que, por morte, deixa de haver sujeito para tal.

Numa terceira categria estarão os seres humanos que acham que morrer é morrer mesmo, mas que não são capazes, nem de aceitar com naturalidade que são, como todos os seres, fugazes, nem de recorrer à fé religiosa para amenizar o desespero que tal fugacidade provoca.

Por isso, desesperam.

É o caso. Saramago está aterrorizado com a sua próxima morte. Como não consegue superar o seu temor, como, convencido que é um ser superior que tem a dizer de sua justiça às massas ignaras, não é capaz de aceitar ter que se ir embora como um cão. Então, servido pelo seu profundo ódio a tudo o que não aceita, faz o que se chama a fuga em frente: lança, raivoso por impotente, os seus anátemas sobre o que mais odeia, que é aquilo em que gostava desesperadamente de acreditar.

Talvez na inconsciente ilusão de, à hora da morte, ainda ter alguma coisa que o salve. Talvez porque, afinal, lhe reste alguma sombra da humanidade que há muito assassinou dentro de si com as armas da mais petulante das intolerâncias.

 

20.10.09

 

António Borges de Carvalho

 


4 respostas a “UM VELHO DESESPERADO”

  1. Depois de ler este post,fico na duvida de quem é afinal intolerante.As maiores mortandades da humanidade,deram-se sempre em nome de um deus.A história diz-nos como as religiões criaram moldaram e dominaram a civilização,a santa inquisição não foi assim há tanto tempo!!!

    1. Pois. Não sei se reparou que, em sítio algum,eu disse que não tinham sido cometidos crimes em nome da religião. Pelo contrário.O que digo, e v. não quer perceber, é que tais crimes são fruto do integrismo, ou seja, de interpreações preversas das crenças que subjazem à nossa civilização.Por outro lado, chamo-lhe a atenção para que, no nosso tempo, os 10 milhões de mortos do estalinismo e os outros milhões do nazismo não foram cometidos em nome de nenhum deus, mas no de puro fanatismo político e filosófico, o que é o evidente caso do senhor Saramago.

  2. Até que enfim vejo alguém que interpreta as angústias existenciais de Saramago na mesma forma que sempre intui.Desde que foi escrito o dito “Evangelho segundo Jesus Cristo” – cuja exclusão na candidatura a um prémio o levou a querer imitar S. João Baptista no seu retiro no deserto ou S. João Evangelista asilado em Patmos – achei que o ex-inquisidor do Diário de Notícias começou a padecer de medo da morte, que sublima revoltadamente em literatura. Saramago tem, entre outros, um defeito: toma-se a sério. Admite mesmo que será imortal, vivendo na ilusão que dentro de uns anos ainda todos se lembrarão dele.Dentro de 50 anos duvido que alguém que não alguns estudiosos tenha paciência para ler o que escreveu.Foi essa importância que se atribui a si mesmo que o levou a amuar com Portugal, a cortar relações com Cuba (pois Saramago não desce a lidar com simples mortais, dialoga de igual com países!), etc.Ele conta que na iminência da morte o seu avô se abraçou às figueiras do quintal, despedindo-se delas, uma a uma. Estou quase certo que foi mais uma “trouvaille” do escritor para dar sabor ao seu discurso em Estocolmo e que tem qualquer coisa de cabotino, como esta conferência de imprensa a dar a sua “importante” opinião sobre a Bíblia.Tem toda a razão no que diz: Saramago podia utilizar a sua fama para doutrinar positivamente. Mas é sempre de maledicência e rancor que se trata. Não há segredo da alma que a conduta não revele.

    1. Obrigado pelas suas muito judiciosas palavras. É sempre bom que haja quem nos compreenda e coopera no enriquecimento das nossas opiniões.

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