– Créééé… cácárácá… filha, estamos feitas!
– Cróóóó… estou farta do galo!
– Um sacana!
– E agora?
– Agora, filha, é o que dizes… estamos feitas!
– O gajo tinha prometido um lugarzinho na capoeira de Lisboa, com ar condicionado e tudo, se não conseguíssemos ficar a mandar nisto por aqui!
– Pois é, filha, mas o que queres, o gajo é um aldrabão, toda a gente sabe que o gajo é um aldrabão… créééé…
– Tens toda a razão, não há quem não saiba… mas, enfim, enquanto nos protegia, era diferente, sempre se ia fazendo justiça… Xiça, já me viste a voltar ao trabalho, ter que andar para aí a esgravatar como uma pindérica qualquer, enquanto aquelas duas peruas, cheias de vento, vão em vilegiatura para terras onde os galinheiros são de alta tecnologia… nós a debicar pedrinhas no campo e elas cheias de milho de priemeira. não há direito!
– Pois, e cheias de bago… classe executiva para lá e para cá… peruas! E a nós? O sacripanta nem a Lisboa nos leva! Ficamos na parvónia, raio!
– O que me irrita são as duas peruas, umas vacas, feias que nem a morte, a rebolar-se nos cadeirões… o que é que essas tipas são mais do que nós?
– Ai, filha, estou cheia de contracções no útero!
– É ovo?
– Qual ovo qual carapuça! É esse badameco desse trafulha que me põe doida.
– Galarote do raio! E se nós nos fôssemos oferecer ao outro, o que ele tirou do poleiro aqui há tempos?
– É capaz de ser boa ideia. Esse, ao menos, trata as fêmeas como deve ser.
– Não há uma que se queixe! Olaré, um galo é um galo, um gato é um bicho.
– Essa é que é essa!
– O que me chateia mais são as duas pavoas! Ainda por cima, andam para aí a dizer que assim é que é, e que o gajo tem razão!
– Umas gordas, umas pedreses, umas cegonhas, elas no laréu e nós a ter que ganhar a vida, bolas!
– Cróóóóó… cácárácá… Estava a pensar… não digo!
– Crééééé… Eu também acho, estou de acordo, vamos a elas, querem peixeirada, grandes mulas, vão tê-la! E o maricas do galaró não perde pela demora!
– Cárácácá!
– Ora bem! Cárácácá, grrrrrrr…
(continua)
6.7.09
Irritado

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