Dois estranhos temas têm feito correr rios de tinta à nossa volta. Infelizmente, o Irritado vê-se na contingência de não concordar com o que, por um lado, o politicamente correcto servido em doses industriais, e, por outro, o governo e seus agentes, têm vindo a meter na cabeça das pessoas.
Passemos aos assuntos em causa:
1. Esbracejam as habituais gloriosas criaturas acerca do anúncio da RDP em que se dizia que as manifestações eram contra quem quer chegar a horas. A vozearia acrescenta que a senhora que dá voz a tal afirmação é directora da RDP e que, portanto, a dita directora deve ser liminarmente saneada.
Ora a verdade é que as manifestações, como as maratonas, os cortejos dos caloiros e outras nobres actividades que merecem o apoio da polícia, o desvelo das autoridades e o gozo de quem nelas se integra, são, indiscutivelmente, realizadas sem qualquer sombra de respeito por quem quer chegar a horas, ou mesmo por quem, sem ter que chegar a horas, se vê metido na confusão.
Quem não passou séculos parado na 5 de Outubro por causa dos professores em fúria ou dos alunos em farra protestativa? Quem não se viu envolvido e prejudicado por multidões com as quais não tem nada a ver? Quem não teve que mudar de caminho porque alguns seus concidadãos acham, com o apoio das autoridades, que o seu direito à indignação ou à festa é mais importante que o direito dos demais a circular nas ruas das cidades às quais paga impostos para poder circular à vontade? Quem não se viu privado de um passeio ao Domingo para que o senhor Pinto de Sousa, o Dr. Sampaio e mais uns milhares de maluquinhos pudessem andar pelas pontes e pelas avenidas em corridinhas idiotas?
Não ponho em causa as liberdades de que gozam os manifestantes, os maluquinhos, o senhor Pinto de Sousa ou o Dr. Sampaio. Mas, convenhamos, não há dúvida de que as actividades dessas pessoas são, objectivamente, prejudiciais aos cidadãos que nada têm a ver com elas.
Por isso que o tal anúncio, se se pode considerar infeliz, não deixa de pôr um problema real e objectivo, problema que se consubstancia na negação da velha máxima que reza que a liberdade de uns acaba onde começa a dos outros.
A tal directora, ao contrário do que dizem os habituais “juízes”, não deve ser saneada. Aliás, mesmo que criminosa fosse, não tem ela a maior de todas as atenuantes, enquanto autora da encomiástica “biografia” do senhor Pinto de Sousa, o “menino de ouro do PS”?
2. O bombo de festa do governo e seus agentes é a TVI, a dona Manuela Guedes e o seu mui ilustre esposo.
Jamais esta gente se preocupou com os dislates da senhora, com as suas afirmações de opinião, o seu “jongleurismo” televisivo, as suas provocações, quando o alvo não era o senhor Pinto de Sousa. Aposto que, no tempo dos governos PSD, se alguém se atrevesse a criticar a senhora, se levantariam os mesmos que ora se consideram ofendidos, a louvá-la pelo seu “profissionalismo”, a sua “coragem”, etc. e tal.
Quando um ministro disse humildemente que achava mal que, nos programas do Sousa, não houvesse contraditório, levantou-se a nação socialista em peso, apoiada pelo Presidente da República, para condenar veementemente, não a ausência de contraditório, mas o pobre do ministro. O Sousa foi ganhar o dinheiro de outro patrão – o Estado – onde hoje é um cordeirinho nas críticas ao chamado governo.
Isto já lá vai. Hoje, a senhora e o esposo são criticados, não por dizer mal do governo, mas porque tem informado as pessoas sobre os esqueletos que há, aos pontapés, no armário do primeiro-ministro. Rigorosamente incapaz de adiantar um só argumento, uma só razão, um mínimo detalhe que possa contribuir para que se livre de tais esqueletos, o primeiro-ministro e a sua trupe adoptam a técnica dos “poderes ocultos” e das “campanhas negras”, e erigem a dona Manuela em capitã das hordas infernais que perseguem o homem. Uma coisa chamada ERC, que ninguém sabe para que serve a não ser para nos custar dinheiro, vem para os jornais com ameaças e inquéritos. A dona Manuela Guedes e o seu amantíssimo esposo são, publicamente, apodados dos maiores erros, só por terem posto à vista do respeitável público alguns factos inconvenientes para o primeiro-ministro e para a clique de demagogos e histriões que, dedicadamente, o serve.
Assim vai este país.
Glória a quem não se cala (Alegre aparte, como é óbvio).
23.3.09
António Borges de Carvalho

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