Quando eu era um pequenote, por altura do São Martinho apareciam nas ruas umas senhoras a fazer um peditório para os combatentes. Quem desse alguma coisa era presenteado com um capacete pequenino, de folha, pendurado num alfinete. Punha-se na lapela com orgulho. Os miúdos adoravam. Punham o capacete na falangeta do polegar e pintavam uma cara na unha. Não percebiam lá muito bem o que era isso de combatentes, embora por vezes vissem na rua uns taradinhos que se chamavam gaseados.
O costume perdeu-se.
No Reino Unido, o capacete era substituído por uma poppy, papoila que, ainda hoje, não há britânico que se preze que não traga ao peito nesta altura do ano. Já não há combatentes da Grande Guerra, mas continua a havê-los de outras. A solidariedade dos povos das nações britânicas para com eles, todos eles, mantém-se inalterada.
Por toda a Europa há comemorações do Armistício. Por toda a Europa, vencedores e vencidos se lembram, no 11 de Novembro, dos mortos, dos estropiados, dos gaseados e até dos desertores.
Por cá, zero. O esquecimento a que os combatentes, os combatentes de todas as guerras, são votados, é um sinal terrível do estado a que chegámos, como povo e como nação.
Ontem, a SIC fez uma larga reportagem sobre as comemorações. Vimos os franceses, os ingleses, os belgas, os polacos, unidos no mesmo respeito pelos que os defenderam. A mesma estação, em relação aos duzentos mil soldados mobilizados ou combatentes portugueses da Grande Guerra, nem uma palavra.
Em Paris, no mais nobre bairro da cidade, há uma Rue des Portugais, que homenageia os nossos concidadãos que, bravamente, deixaram o seu sangue em terras francesas.
Por cá, nem uma palavra, nem sequer uma imagem dos monumentos que, noutros tempos, lhes foram erguidos. Nos jornais “de referência”, nada. Do governo, zero. Do Presidente da República, népias. Do parlamento, um silêncio sepulcral.
Será que o que nos fazia ser portugueses já não existe?
11.11.08
António Borges de Carvalho

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