IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


UMA QUESTÃO DE CUSPO

 

Um dos resultados nefastos de uma democracia mal entendida tem sido, ao longo dos anos, a sindicalização de profissões que deveriam distinguir-se por uma postura mais consentânea com a dignidade, a especificidade, a posição e a influência social das suas funções.

Os médicos, os professores, os magistrados, os polícias, comportam-se como se fossem electricistas, estivadores, serralheiros ou almeidas da câmara. Nada do que corre mal é de sua responsabilidade. Tudo o que corre bem corre a seu crédito. Culpa alguma lhes cabe do mau funcionamento das instituições a que pertencem. Cada agente merece bom salário, respeito, consideração e regalias, parecendo que nada tem a dar em troca à sociedade.

Os médicos fazem greves como se de agulheiros se tratasse. Os professores, meu Deus, é o que se sabe, nenhuma responsabilidade lhes cabe seja no que for, não dão aulas de substituição, não querem ser avaliados. Os magistrados multiplicam-se em declarações sindicais paralelas ou afins às dos motoristas da Carris.

Em suma, as classes que deviam servir de exemplo, que se suporia interiorizarem responsabilidades sociais de topo, comportam-se como aquelas a quem tais responsabilidades não são exigidas.

A sociedade, como é lógico, perde referências. As “elites”, “proletarizadas”, deixam de o ser. O tecido social esfarrapa-se.

Não contesto que a todos e cada um dos elementos de tais perdidas elites caibam direitos e devam receber da sociedade a consideração, o respeito e a justa retribuição pelo seu trabalho. Já os meios que utilizam para defesa de tais direitos, sendo iguais, quiçá mais violentos e retumbantes, que os dos demais, não são compagináveis com a dignidade que dizem pretender conservar. Colocando-se em pé de igualdade com outros quando os seus mais ínfimos privilégios estão em causa, não só cavam a própria sepultura enquanto elites, como põem em causa estruturas fundamentais ao funcionamento da sociedade civil.

 

Desgraçadamente, a coisa chegou aos militares. Passado o consulado de Paulo Portas, que conseguiu alguma “pacificação”, voltámos à guerra aberta entre os militares e o governo. Os meus ouvidos nem queriam acreditar quando um secretário de estado – um diplomata penteadinho e oco – declarou que não havia problema de espécie nenhuma e que o governo trabalhava, como é normal, com as chefias militares em harmonia e cooperação. Dois dias depois, o chefe do estado maior declara que não senhor, que há problemas, e dos graves. Mais ou menos na mesma altura, outro general, com grande influência nos media e com altas responsabilidades políticas e pessoais, vem ameaçar as instituições: ou se portam bem ou se arriscam a uma golpada. Perguntado se não haveria exagero nas suas palavras, respondeu que nada tinha a tirar nem a acrescentar e que já tinha gasto a saliva que tinha a gastar com o assunto. Isto é, reafirmou a hipótese da golpada. Uma questão de cuspo.

Comparados com esta atitude, o “passeio” no Rossio e as sargentadas e tenentadas do costume são brincadeiras de crianças. Há, ao mais alto nível, militares insubordinados,  irresponsáveis e impunes.

O Ministério da Defesa, como o país em geral, é dirigido por incapazes. Toda a gente o sabe. Mas daí até os generais ameaçarem a liberdade das pessoas com intentonas, vai uma distância cósmica. Daí até o general Eanes fazer pública demonstração de solidariedade com os “golpistas” a distância não será tão grande, mas é assutadora.

Parece que, se os motoristas da Carris, os despedidos dos texteis, os metalúrgicos ou os magistrados tivessem armas, justo seria que fizessem golpadas ou que ameaçassem fazê-las.

 

O vírus está por toda a parte. Como se recupera a textura social de um país que chegou onde nós estamos a chegar é coisa que nem o mais sábio saberá dizer. 

 

2.11.08

 

António Borges de Carvalho


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