Os relatórios sobre o acidente na linha do Tua referem, ainda que de forma suave, o estado, verdadeiramente miserável, em que se encontrava o troço de via onde o combóio se espetou.
Ao Irritado, como a qualquer cidadão, bastou olhar as fotografias de tal troço, publicadas na imprensa, para chegar à mesma conclusão. A evidência (travessas esfareladas, fixações fora do sítio, balastro arruinado, etc.) era de tal ordem que pode dizer-se que os responsáveis pela manutenção da linha foram apanhados em flagrante delito de negligência, de incompetência e de desrespeito pala vida dos passageiros, com consequências homicidas.
Os relatórios dizem que o acidente revela falta de conservação (mais que manutenção, simples conservação) da linha, podendo “originar uma elevada probabilidade de pôr em risco a segurança da circulação”. Mas os “responsáveis” da Refer apressaram-se a argumentar que “as fotos denotam situações que na realidade não são tão preocupantes”. Note-se, sem mais comentários, o rigor técnico desta alegação.
Em resumo, podemos ficar descansados. Daqui a largos anos, depois de mais dezóito comissões de inquérito terem emitido as suas esclarecidas opiniões, depois de as companhias de seguros se terem safo de pagar indemnizações, depois de sete tribunais terem emitido doutos acórdãos, o mais provável é que o assunto tenha morrido mergulhado nessa maravilha fatal da nossa idade que se chama prescrição. Todos continuaremos em paz, os mortos com os mortos, os vivos a tratar de outros assuntos, mais interessantes que este insignificante fait divers.
1.11.08
Antóno Borges de Carvalho

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