O autor destas linhas passou, por duas vezes, uns dias no Kosovo.
É uma terra de contrastes. Uma economia predominantemente rural, pobre sem ser miserável, pequenas aldeias com casinhas mal construídas e alfaias obsoletas espalhadas a esmo à sua volta, uma gente mais ou menos simpática, dieta simples do tipo levantino, muitos legumes, saladas, pouca carne, carneiro intragável, mulherzinhas de lenço na cabeça a lembrar o Portugal de há cinquenta anos. As poucas cidades, mormente a capital, são um paraíso de cassetes piratas, CD’s, DVD’s e mais o que se possa imaginar, uma juventude com veleidades ocidentais, jeans, decotes, faixas da gaja, malta desempregada mais por opção do que por sina, bandeiras americanas e albanesas, uma confusão provinciana e primitiva.
No meio disto, vêm-se magníficos Mercedes e BMW’s, as mais das vezes com carros de seguranças à frente e atrás. Há qualquer coisa de suspeito naquilo tudo, difícil de ajuizar. Serão mafiosos? Para nós, sim. Para os albaneses do Kosovo são heróis libertadores, fulanos que andaram nas montanhas a perseguir os sérvios e que, naturalmente, se financiaram para a guerrilha como habitualmente, se financiam as modernas guerrilhas: droga, tráfico de mulheres, comércio de armas… e que, muito naturalmente, prosseguem com as suas “naturais” actividades “económicas”.
Não percebemos quem é sérvio e quem é albanês. Mas eles distinguem-se uns dos outros sem risco de erro. Como? Sei lá. Poderia pensar-se que as albanesas – muçulmanas – andavam de chador, as sérvias não. Nem pensar. As albanesas, apesar de pagas (cem dólares cada) para o usar por ONG’s sauditas, recebem a massa e borrifam no assunto. Nada, para nós, distingue uns dos outros. Mas eles conhecem-se e odeiam-se.
No meio de Pristina há uma rua sérvia. Em cada extremo dela, um carro de combate das forças da NATO. As crianças sérvias que lá moram, para ir à escola, precisam de uma escolta militar armada até aos dentes. As donas de casa, para ir às compras, também. Nas traseiras dos prédios dessa rua há postos de vigilância permanente a observar as redondezas, com metralhadoras apontadas em todas as direcções.
Deslocado por Belgrado, um funcionário sérvio, cercado por fortes medidas de segurança, chefiava a secção de passaportes. Era um tipo simpático e dava-se bem com toda a gente. Um dia, confiante de si, iludiu a segurança e resolveu dar uma volta sozinho. Não andou mais de duzentos metros. Uma granada deu-lhe cabo do canastro.
O bispo sérvio vive num mosteiro, a meia dúzia de quilómetros da capital. Escusado será descrever o aparato de tropa que o guarda e que o acompanha se quiser deslocar-se.
A vingança dos albaneses por séculos de dominação, pela quebra da autonomia que Tito lhes tinha outorgado, pela limpeza étnica de Milosevic, não conhece limites. Os sérvios, minoritários e “na mó de baixo”, estão “pacificados”. Até ao dia da sua própria vingança, é o que, nas entrelinhas, acabam por confessar.
Não se trata, penso, de um conflito religioso. É certo que os sérvios, mais por defesa que por fé, se agrupam à volta das suas igrejas e dos seus popes. Os albaneses, mesmo dizendo-se muçulmanos, andam longe de Maomé. Bebem álcool, comem chouriço e fornicam à vontade. Pode haver alguns centros de ortodoxia muçulmana mas, se os há, não são coisa que se note. Os ciganos, “romas” como por lá se diz, não contam. Dedicam-se à mendicidade e à pequena criminalidade, como é característico da etnia.
A NATO interveio no Kosovo, à revelia das Nações Unidas, por questões humanitárias indiscutíveis. Note-se que o senhor Clinton não estava nada interessado no assunto. Acabou por alinhar por solidariedade para com os seus aliados, coisa que foi devidamente “paga” por estes quando Bush resolveu fazer o mesmo no Iraque. Se não fosse a ajuda americana, os europeus teriam deixado, na Sérvia e no Kosovo, dezenas de milhares de mortos. Mas, os mais dos europeus, nem no Afeganistão se lembram disso: mandam tropas a título simbólico, nada de riscos, que faz calos.
Espera-se que a Europa não venha a precisar, da parte dos EUA, de retribuição desta “solidariedade”. E, ou me engano muito, ou, se o senhor Obama for eleito, bem pode a Europa tirar os cavalinhos da chuva…
Na minha primeira viagem a Pristina eram ainda muito visíveis os resultados dos bombardeamentos americanos. Em frente do hotel onde estava – o único minimamente decente que havia à altura – via-se, do lado de lá da praça, num estado lastimável, um edifício destruído à bomba. Era a antiga sede da polícia de Milosevic. À sua volta, tudo intacto. A caminho dos barracões da NATO, uma série de antigos depósitos de combustíveis militares, estava arrasado. À sua volta, tudo intacto. E se os americanos não tivessem feito isto? Quantos soldados do senhor Chirac não teriam morrido para “conquistar” estas posições?
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Conheci relativamente bem um senhor, chamado Ibraim Rugova, um patriota Kosovar, pró-ocidental, líder das forças moderadas albanesas e moderador das que o não eram. Apreciei as intenções pacíficas do homem, ainda que duvidasse do seu sucesso, metido como estava numa tempestade de ódio. Tinha uma paixão sincera e honesta pelo seu povo. Guardava, numa sala da moradia onde tinha quartel-general, numas estantes de vidro, amostras dos solos, das pedras, dos minerais do Kosovo, e, com comovida paixão, oferecia pedaços da sua terra a quem o visitava. Aos que se interessavam por um futuro de paz e democracia na região, incutia alguma segurança, alguma confiança. Quando houve eleições, ganhou-as com larga margem. Mas veio a morrer bem cedo, vítima de cancro. De resto, as “autoridades” kosovares nascentes mereciam confiança nenhuma.
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A independência acabou por chegar. As tais “autoridades” tomaram conta do “país”. Mas o ódio não foi aplacado. O Kosovo é um protectorado internacional e não deixará de o ser tão cedo, sob pena de novos latrocínios, novos atentados, novos ondas genocidas. Ninguém saberá como resolver o problema, porque o problema está no coração das pessoas, não tanto nos seus interesses. Neste caso, como em muitos outros, a verdade é extremista porque, como dizia o poeta “é no sentimento que ela está”.
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Portugal acaba de reconhecer a independência do Kosovo. Uma atitude duplamente cobarde. Cobarde porque, confessamente, não foi fruto de nenhuma apreciação directa do problema, mas de uma postura de “Maria vai com as outras”. Cobarde porque, dando com uma mão, se tira com a outra: uma série de “prémios de consolação” à Sérvia, uma tentativa de lavar as mãos como Pilatos, na estulta pretensão de ficar de bem com uns e com outros.
Portugal concertou posições com outros países europeus? Com certeza. Um sinal de que a concertação é possível. Como a Espanha e a Grécia ficam de fora, porque não se concertou com Espanha? Em relação a esta, Portugal “concertou” mais com a ETA que com o Reino.
Não havia outra coisa a fazer? Talvez. Ninguém explicou, porém, quais seriam, para os nossos interesses, as consequências de outra atitude.
Luz ao fundo deste túnel é coisa que não há. Outros problemas, mais urgentes, mais importantes, nos preocupam. Então porque entreter-nos a todos com isto, como se isto nos dissesse respeito?
António Borges de Carvalho

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