Num artigo muito interessante, ontem publicado no jornal privado chamado “Público”, um professor de engenharia, de seu nome Manuel de Matos Fernandes, defende a ideia de que a vitalização do Terreiro do Paço é condição sine qua non de repovoamento da Baixa. Não há, é evidente, qualquer possível justificação para que quem visita Lisboa, preferindo, como é natural, a sua zona histórica, venha encontrar na Baixa uma zona comercial miserável e uma praça que, sendo de inigualável beleza, nada tem para oferecer.
De acordo. De acordo também com a colocação, no Terreiro do Paço, de um grande museu dedicado aos descobrimentos. O articulista expõe as suas ideias para a organização e os conteúdos de tal museu, ideias que não serei digno de repetir, mas diante das quais me curvo com admiração e apoio.
Um museu digno de uma grande capital europeia? Com certeza.
Mas não chega. O Terreiro do Paço precisa de outros tipos de animação, comércio de qualidade, restaurantes, hotéis, música (por muito que custe ao senhor Louça, que não gosta de música, sobretudo se a iniciativa vier Dr. Santana Lopes), passeios fluviais tipo city sight seeing, como já há em terra, etc., o que trará ao Terreiro do Paço o elemento fundamental: gente.
É evidente que estas ideias não são compatíveis com as patacoadas do senhor Costa, nem com as maluquices da dona Helena, nem com a policialite do caloteiro Fernandes. Não é a pôr uns tipos a andar de bicicleta ao domingo, nem uns patinadores à segunda, nem uns palhaços à terça, nem a sustentar pombinhas porcas e insalubres, nem a fechar o trânsito sem alternativa decente, nem a dar a Casa dos Bicos ao senhor Saramago, que se atrai gente à Baixa, quanto mais ao Terreiro do Paço.
Haja quem ouça o Professor Matos Fernandes, quem ouça outras vozes, eventualmente menos “ecológicas” do que manda o politicamente correcto, quem olhe para o que se passa nas capitais europeias onde impera alguma inteligência. Não sei se isto será compatível com a câmara social-esquerdóide que temos, mas, enfim, fica o desejo.
Já agora, poder-se-ia começar a “revolução” por uma coisa muito simples. Chamar Terreiro do Paço ao Terreiro do Paço. Passadas pelo menos dez gerações desde que o Marquês teve a peregrina ideia de chamar àquilo Praça do Comércio, e ainda os portugueses – à excepção da Carris e da câmara – tal coisa lhe não chamam. O mesmo se poderia fazer em relação ao Rossio, que jamais foi conhecido por Praça Dom Pedro IV, e pelo Areeiro que, para mal dos meus pecados, nunca passará a Praça Sá Carneiro.
Dir-se-á que não é nada, mas, às vezes, estes nadinhas ajudam.
António Borges de Carvalho

Deixe um comentário