É sabido que o jornal privado chamado “Público” é, desde longa data, um jornal “independente de esquerda” onde alguns articulistas não de esquerda têm assento, julgo que na qualidade de raminhos de salsa para temperar a coisa sem a fazer perder o sabor.
Nos últimos tempos, porém, tal postura assume proporções um tanto exageradas. Os novos comentadores de serviço, a começar por uma senhora que se chama Afonso, a qual, entre raciocínios mais ou menos absurdos, chega ao extremo de dizer que a “realidade é de esquerda”, remetendo o que não for de esquerda a uma mera inexistência, são da tendência testemunhos evidentes. É pena.
Hoje, por exemplo, assistimos a um molho de artigos, apostados, de uma forma ou de outra, em “justificar” o Putin com observações filosófico/histórico/políticas intelectualíssimas, todas tendentes a pôr diversos pontos nos is, pontos de que nunca os autores se tinham lembrado não fora a guerra da Ucrânia. Veja-se a arenga do Dr. Pureza em atrapalhada defesa “filosófica” dos pontos de vista do seu BE, veja-se o escrito do ilustre académico Azeredo Lopes, desastrado ex-ministro da defesa, ou a entrevista do insuspeito Luís Amado, também ele da área dos (ex) governantes socialistas.
A Rússia é uma democracia(!) “iliberal”, o que, basicamente, justifica que se sinta ofendida com uma alegada perda de importância e reaja à bruta. Há que atender a “razões” históricas ou ideossincracias respeitáveis. E até, como de costume, se aproveita para atirar as devidas pedras aos erros, falsos ou verdadeiros, do “Ocidente”.
É, no “Público” como um pouco por todo o lado, uma espécie de cruzada de “esclarecimento” intelectual e/ou académico destinado a enfraquecer a gritante razão dos ucranianos, assim ajudando o inimigo.
A cruzada é legítima, como todas as cruzadas possíveis onde há liberdade de expressão. Mas, subjacente, há a criação da dúvida e o uso de tal liberdade para proteger os que a põem em causa ou a aniquilam.
31.3.22

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