O IRRITADO, ao contrário de algumas opiniões, não tem estado de férias, nem se calou com medo do Putin. Olha o que toda a gente vê e tem, como compete a qualquer pessoa propriamente dita, opinião sobre o que se passa, opinião que, ao contrário do costume, não difere da da comunidade em geral.
Para além do choque e da indignação que a guerra causa, ao IRRITADO vale a pena chocar-se, indignar—se e irritar-se com o que por aí inúmeros intelectuais propalam. Os do PC e os do Bloco, sem surpreza, defendem, ou disfarçam que defendem, os crimes do regime russo. Mas há muitos mais. Os que acham qua a “história” justifica o massacre da Ucrânia, divulgam com alegria nas teses que propagam a ideia de que a Ucrânia nunca existiu e, daí, concluem que a Rússia está a defender o “seu território”.
Imagine-se que, em Portugal, o regime adoptasse a posição de dizer que Angola, por exemplo, nunca existiu, foi uma criação dos portugueses, os quais têm o direito de reclamar o foi seu durante séculos. É verdade que Angola é uma criação dos portugueses, não existia antes deles e só existe por causa deles. No seguimento de tão justa ideia, justificar-se-ia que fôssemos todos “reconquistar” Angola.
A ideia é completamente estúpida. Mas, mutatis mutandis, é o que anima o Putin. Pior, é o que sustenta a multidão de “justificadores” que andam por aí nos jornais a defender que, enfim, os meios utilizados são condenáveis, mas, lá bem no fundo, o homem até tem “razões atendíveis”. Isto passa-se com intelectuais de esquerda, com fartura, e de direita, alguns de quem não se suspeitaria.
Em tempo de guerra, intelectualices durante décadas guardadas a bom recato, surgem por todos os lados, vêm à tona já que, agora, vendem artigos nos jornais e antes não davam euros. Facto é que, de repente, andam por aí , num fartote, as teorias sobre os “erros do Ocidente”, a descrediblizar o quase universal consenso sobre a guerra.
No fundo, andam a limpar as armas do Kremlin em vez de as danificar.
11.3.22

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