– Boa tarde, senhor Valeira.
– Olá, tá bom? Como vão as coisas lá na Gomes Vieira?
– Tudo bem, mas temos preocupações.
– Então?
– Bom, o seu amigo gostava de lhe falar mas, como sabe, é melhor ser no sítio do costume…
– OK. Quando?
– Amanhã às dez.
– Combinado.
Às dez, dois discretos automóveis pararam num descampado atrás do cemitério de Benfica. Dois homens, de chapéu cambado, óculos escuros, máscara e viseira saíram, cada um do seu carro, e afastaram-se até um plátano solitário ainda cheio de folhas.
– Olá, pá. Rapidamente, antes que nos filmem, venho pedir-te ajuda.
– …
– Tás a ver o que se passa? Anda tudo a dar-me cabo do juízo por causa da tua candidatura à presidência do Carcavelinhos. Dizem que eu não devia alinhar, tás a ver a chatice, até o gerente dos pastéis de Belém me anda a morder as canelas, temos que parar com isto.
– É fácil, pá. Dás o dito por não dito, dizes que foi uma imprudência, foi um tipo do gabinete que se enganou, foi um mal entendido, mandas umas bocas das que tu sabes, e pronto, em dois dias está tudo em ordem.
– Pois, mas vão dizer que são desculpas de mau pagador, que me encolhi, que me acobardei…
– Então, Teotónio, o que queres que eu faça, caraças?
– Expulsa-me. Diz que já não me queres, saneia-me, põe-me na rua, assume o erro, diz que abusaste, que estamos a ser perseguidos por uma cáfila inqualificável, os teus advogados que escrevam uma balela qualquer.
– Tá bem pá. Vou fazer isso. E, quando eu precisar, não te esqueças de mim.
– Fixe.
E lá se foram, cabeça lavantada e consciência tranquila.
18.9.20

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