Anos atrás, uns senhores, probos e sérios, convidaram-me para um movimento político que estavam a lançar. Tratava-se de um grupo com origem no CDS, democratas cristãos, católicos praticantes, tidos por “freitistas”. Considerei o convite uma honra.
Fui a várias reuniões, aprendi algumas coisas, cooperei na redacção de alguns textos programáticos, etc.
Até que. Até que percebi que o movimento tinha como objectivo número um integrar as listas do PS (Guterres) para as legislativas. Nessa altura, como é óbvio, escrevi uma carta desligando-me do movimento. Socialismo não, ainda menos com o aval da “Igreja”.
E lá entrou para o parlamento a senhora Carneiro e um rapaz cujo nome esqueci. Não sei o que aconteceu ao rapaz. A senhora ainda por lá anda, a espernear inútil e ingloriamente contra o aborto e outros progressismos sociais da clique do senhor Martins.
Serviram os meus amigos, como é evidente, de bengala “religiosa” e “centrista” para o socialismo guterrista.
O senhor Marques, célebre pela incursão marítima em Timor na companhia do General Doutor Eanes, aparece agora com uma nova iniciativa, sequência lógica da dos meus amigos e em evidente ligação com eles. O movimento não tem ideologia que se entenda, usa chavões tipo “esperança”, “justiça social”, “coesão”, etc., situa-se fora da esquerda e fora da direita (onde?), propugna uma “política de pontes” (!), e vai passar a partido político. Já anda, aliás, a reunir as assinaturas necessárias. A imprensa, a rádio e a televisão dão-lhe alto destaque, o senhor Marques vai aparecendo aqui e acolá fazendo as suas lenga-lengas com a “devida” cobertura informativa.
É evidente que se trata de um reforço da bengalinha do senhor Guterres, desta vez oferecida em bandeja humanista ao senhor Pinto de Sousa. Para além disto, ou seja, para além do cavalete que levará mais um ou dois deputados para São Bento em 2009, não se sabe o que quer o senhor Marques. Se calhar não quer mais do que isso.
Lá vai o senhor Pinto de Sousa compensar, com as sacristias marquistas, as abébias que anda a dar à sofreguidão da esquerda.
António Borges de Carvalho

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