Se eu quiser ir de Lisboa a Loures, Cascais, Amadora, arrisco-me aos maiores aborrecimentos com a polícia, isto se não for “identificado” e mandado a um juiz que, sonolento, me dará uma descompostura ou me passará uma multa das boas. Mas, se eu tivesse querido (t’arrenego!) ir à manifestação da CGTP, seria objecto de elogios e teria a honra de privar com inúmeros membros do comité central do PC que por ali estavam a comandar as hostes. Se tivesse intenção de ir a Fátima no dia 13 seria recebido pela Guarda Republicana (nome dado à Guarda Nacional, aqui e no Irão). O mesmo se quiser ir à missa, jantar fora, ir ao barbeiro ou a outros locais onde impera o ópio do povo ou o tenebroso capitalismo comercial.
Como se vê, estas manifestações colectivas são privilégio guardado para discípulos de Marx, Jerónimo, Ferro e Costa. Tudo boa gente.
Posto isto, há que admirar a organização. O PC, fiel às boas tradições soviéticas, faz frente à concorrência do BE – reduzido este ao palrar mecânico e patego da Catarina – e mostra um poder marcial pouco comum nos tempos que correm. Em impecável formatura, tropas em parada, distâncias ao milímetro, bandeiras desfraldadas a tremular ao vento como no tempo da segunda república e da gloriosa URSS, máscaras de modelo patenteado, alvas, puras, com cruzes, perdão, xizes vermelhos sobre dizeres da cartilha, houve revista, ensaio, planeamento, autocarros vindos de longes terras com representantes de vários regimentos, uma senhora, coitadinha, a dizer umas coisas que ninguém ouviu, à esquina o Arménio, o Xico Lopes, aquele que parece o Goebels, o Jerónimo, outros que não se sabe, o comité em peso a vigiar, a ver se há alguma falha, algum vestígio de indisciplina, alguma falta de ortodoxia, algum desvio burguês, alguém para expulsar ou promover. Grande demonstração cívica!
A lei, diz-se, é igual para todos. Mentira. Há o PC e há os outros. Os outros que fiquem em casa, como compete a quem se verga perante a lei, mesmo que a lei seja estúpida, ilegítima, inconstitucional, tirânica. O PC, esse, é outra coisa, os donos da lei não lha aplicam, é a fraternidade socialista, os donos da lei e da República isentam o PC de obrigações. Se há quem duvide, veja, pasme e amoche, que isso de fazer amochar os outros é a regra base da democracia em versão socialista.
2.5.20

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