Julgo que Portugal terá sido o país onde a condenação do Bolsonaro foi mais violenta e mais unânime. 99,9 por cento dos comentadores dedicou-se, diariamente, semanas atrás de semanas, a brindar o homem com todos os insultos possíveis. Somaram-se-lhe académicos, políticos, donas de casa, deputadas, centrais sindicais e freitas dos amarais, o diabo a quatro, todos concordantes com a tão fácil diabolização do candidato. Nem os partidos de direita se eximiram a tomar posição. Pelos vistos, Portugal é o país mais à esquerda da galáxia.
É verdade que o fulano foi dizendo toneladas de disparates ao longo da vida e da campanha. É verdade que mete medo. E o outro? Continuar a “carreira” de Lula e de Dilma? Nem pensar. Os brasileiros que se renderam ao Jair sabiam o que estavam a fazer. E fazê-lo era dizer que essa gente do PT nunca mais, num grito de revolta democrática que perdeu a mordaça e se fez valer. Não se trata, como se arrota para aí, de haver 50 milhões de “fascistas” no Brasil. Não se trata de haver 50 milhões de ricos, de capitalistas sem escrúpulos, de haver 50 milhões de assanhados ultraliberais. O que há é uma maioria clara de gente que recusa a rebaldaria esquerdista que a arruinou, como, de resto, arruina tudo em que toca, em toda a parte por esse mundo fora, Portugal incluído.
Mas os lídimos representantes do luso-pensamento, tão habituados a que se lhes dê ouvidos, auto –proclamados intelectuais, poderosos donos da verdade, da República e do politicamente correcto, não vêm um palmo à frente do nariz, não são capazes de qualquer análise política ou social que ultrapasse os seus cânones e a sua “superioridade”. Os que condenam o Bolsonaro, mas que nunca condenaram o Fidel, o Chávez, o Maduro e quejandos, encontraram em Jair o bombo da festa esquerdista, zarolha e convencida. Outros foram atrás. Era o que estava a dar.
O eleito vai ser uma desgraça para o Brasil e para o mundo, uma espécie de Trump em português? Talvez.
Mas, no discurso de vitória, sincero ou não, defendeu impecavelmente a democracia, o estado de direito, os princípios básicos da civilização ocidental. E esta, hem? Ó horda de esquerdófilos, que comentário lhes merece?
Facto é que, agora que alia jacta est, o que interessa é deixar-se de condenações antecipadas, ajudar o eleito a ser fiel a tal discurso e aproveitar a eleição para pôr as coisas de novo a funcionar, sem corrupção nem esquerdismos.
Serão os nossos “fazedores de opinião” capazes de tal bom senso? Duvido. Os donos da “verdade” são donos da verdade, não têm nada a ver com o que se passa fora do alcance dos seus antolhos.
29.10.18

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